Quando me conheceu, eu não podia dimensionar a força que ela possuía. Somente algum tempo depois comecei a reconhecê-la, e a considerá-la uma fortaleza de mulher.
Guardo na memória – de seu tempo de vida saudável – poucas lembranças. A capina quase diária no pátio – na horta ou no canteiro de flores - sob um sol escaldante que fazia minha mãe a repreender, exigindo que ela se cobrisse, colocando um chapéu sobre a cabeça. Mas ela não atendia as recomendações da mãe. E terminava o ‘serviço’com o rosto ‘avermelhado’, chamando minha atenção infantil.
E embora minha mãe se aborrecesse com esse fato, ela insistia em ‘desobedecer’, numa teimosia birrenta, que eu viria herdar de forma tão indelével.
Quando eu estudava no Grupo Escolar, perto de casa, ela me esperava, ao meio dia, no portão. Chegávamos a casa, eu e a mãe, sob a recepção afetuosa da minha avó.
Num certo dia, ao retornar da Escola – eu estava às vésperas de completar sete anos de idade – recebi a notícia que me faria enxergar minha avó, num futuro duradouro, com outros olhos: ela havia sido acometida por um mal súbito e levada ao hospital. A doença se instalara.
Foram nove meses de hospitalização. E quando minha avó retornou a casa, estava sem poder falar e andar. Com ela veio também uma acompanhante, um anjo que a vida nos fez conhecer. Ela acompanharia minha avó – e a todos nós – até seus últimos momentos, treze anos depois do triste dia daquele mal-estar.
Minha avó, embora adoentada, não tinha abatimento. Parecia mesmo resignada com a condição que a vida lhe impunha.
Da sua cama, ou da cadeira de rodas onde era colocada diariamente, contribuía, e ‘fiscalizava’ o movimento da nossa casa. Muitas vezes apontava para as roupas no varal, se a tarde caía e ninguém aparecia para tirá-las de lá.
Além disso, na medida do possível, participava dos churrascos em família, das comemorações dos aniversários, das festas de final de ano, das reuniões dos amigos dos netos e curtia, de modo peculiar, a visita do filho que vivia em lugar distante.
Do seu quarto – que tinha uma posição privilegiada na casa – ela ‘dava um jeito’ de participar da rotina da família.
A minha fala ela respondia com o olhar, ou com movimentos labiais a murmurar algo, e aos sussurros, uma façanha que a doença não lhe retirara integralmente. Ela tinha, quase sempre, um sorriso nos lábios...e uma serenidade...
Quando estava em sua cadeira de rodas até ‘farra’ fazíamos pelo pátio. Muitas vezes sentei no seu colo para passear com ela. Outra vezes subia na parte frontal da cadeira de rodas, colocando meus pés no lugar onde ela apoiava os seus, e saíamos a borboletear pela calçada da rua onde morávamos.
Divertíamo-nos juntas, e nessas brincadeiras eu aprendia a admirar-lhe.
Muito embora o sacrifício que a doença da avó infligia a toda a família ninguém na nossa casa se incomodava com as limitações que a doença dela nos trazia. Era um exemplo para nós.
Um dia minha avó silenciou, mas sua força eu guardo comigo, e dela eu retiro a coragem e o ânimo que acende o meu cotidiano.
Li e reli o que a cronista viveu no seu dia a dia e que eu, por notícias, acompanhava à distância. Hoje sinto saudades dos anos vividos ao lado dela quando ainda era toda saúde e me entristece lembrar as visitas esporádicas que fazia quando ela parecia sorrir mas não conseguia balbuciar uma só palavra.Um terço de minha viva foi ao lado dela os outros foram separados pela distância que sempre separaram nossos endereços. Mãe, me destes a mesma coragem e o mesmo ânimo que tua neta herdou.
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