Andar de ônibus em Pelotas é um grande desafio, por razões óbvias. Primeiro porque dificilmente os ônibus cumprem os horários de passagem. É realmente impossível acertar a hora em que o ônibus que a gente precisa ‘pegar’ vai passar. À dois, porque nunca se tem bem certeza se o ônibus pretendido passa, e pára, na parada que elegemos para aguardá-lo. Não existem informações nas paradas de ônibus em Pelotas, nem sobre as linhas, nem sobre os horários. O que existe é uma incógnita total.
Bem, para ser bem honesta, não existem sequer paradas de ônibus...
Além disso, em alguns horários e linhas, a superlotação aparece. É um empurra-empurra, um aperta aqui e acolá, sempre potencilizados pelas frenagens bruscas, de inopino, que os motoristas realizam para um deleite pessoal e vil, especialmente porque eles tem o volante do ônibus para se agarrar.
Não fosse tudo isso já insuportável, agora as pessoas resolveram se esparramar no ônibus, adotando uma atitude para lá de espaçosa, aborrecida, um verdadeiro desrespeito aos demais passageiros que ali estão.
Eu falo de uma ‘mania’ que toma conta do transporte coletiva: ouvir música, dos telefones ou MP3, ou qualquer coisa semelhante, sem fones de ouvido.
É isso mesmo: as pessoas, dentro do ônibus, sem importarem-se de incomodar quem está a fim de ficar quieto, e no silêncio, colocam seus aparelhos eletrônicos a funcionar a pleno, obrigando, mesmo quem não quer, a escutar música de gosto duvidoso. Uma atitude de gente espaçosa demais...mal educada demais.
Há um diversidade de sons: rola funk, pagode universitário, forró, rock, heavy metal, sertanejo, samba, e outros tantos estilos musicais para os quais não tenho sequer denominação. Eles formam um conjunto nada harmonioso de sons e tons que se misturam dentro do transporte coletivo, obrigando a todos aquela ‘curtição’.
Ontem fiquei observando isso de maneira mais intensa. Aconteceu dentro de um coletivo urbano, destes que fazem a volta pela cidade: o chamado interbairros. Eu fazia um ‘tour’ citadino e, ao mesmo tempo experimentava uma diversidade musical impressionante.
Num determinado momento, a mistura acústica era tão grande, que eu arrepiei. Não suportei a ‘vibe’ daquele ‘trio elétrico’ improvisado. Isso sem falar naqueles que falam ao celular aos gritos, talvez por dificuldade no sinal; ou porque não sabem aumentar o volume do telefone. Sei lá. Cheguei a pensar que se o interlocutor estivesse a menos de 200 metros de distância, o telefone seria desnecessário, tal o volume com que se comunicam ao telefone móvel.
Desci do ônibus num local e numa ‘parada’ – parada? Onde mesmo? – que não eram as minhas eleitas inicialmente, mas foi a forma que encontrei de me ver livre, por algum tempo, daquele som enlouquecido que provinha dos aparelhos eletrônicos dos passageiros.
A vida tem sido assim, nos últimos tempos. Ninguém respeita mais o outro. Ninguém se importa muito com o outro. Não há limites. Ninguém se coloca no lugar do outro. Cada um faz aquilo que tem vontade, e se está bem para si próprio, os outros que se danem. Um egoísmo, um egocentrismo assustador, evidenciado por mais esta atitude desrespeitosa e abusiva dentro dos coletivos urbanos.