quinta-feira, novembro 10, 2011

Sem noção


Andar de ônibus em Pelotas é um grande desafio, por razões óbvias. Primeiro porque dificilmente os ônibus cumprem os horários de passagem. É realmente impossível acertar a hora em que o ônibus que a gente precisa ‘pegar’ vai passar. À dois, porque nunca se tem bem certeza se o ônibus pretendido passa, e pára, na parada que elegemos para aguardá-lo. Não existem informações nas paradas de ônibus em Pelotas, nem sobre as linhas, nem sobre os horários. O que existe é uma incógnita total.

Bem, para ser bem honesta, não existem sequer paradas de ônibus...

Além disso, em alguns horários e linhas, a superlotação aparece. É um empurra-empurra, um aperta aqui e acolá, sempre potencilizados pelas frenagens bruscas, de inopino, que os motoristas realizam para um deleite pessoal e vil, especialmente porque eles tem o volante do ônibus para se agarrar.

Não fosse tudo isso já insuportável, agora as pessoas resolveram se esparramar no ônibus, adotando uma atitude para lá de espaçosa, aborrecida, um verdadeiro desrespeito aos demais passageiros que ali estão.

Eu falo de uma ‘mania’ que toma conta do transporte coletiva: ouvir música, dos telefones ou MP3, ou qualquer coisa semelhante, sem fones de ouvido.

É isso mesmo: as pessoas, dentro do ônibus, sem importarem-se de incomodar quem está a fim de ficar quieto, e no silêncio, colocam seus aparelhos eletrônicos a funcionar a pleno, obrigando, mesmo quem não quer, a escutar música de gosto duvidoso. Uma atitude de gente espaçosa demais...mal educada demais.

Há um diversidade de sons: rola funk, pagode universitário, forró, rock, heavy metal, sertanejo, samba, e outros tantos estilos musicais para os quais não tenho sequer denominação. Eles formam um conjunto nada harmonioso de sons e tons que se misturam dentro do transporte coletivo, obrigando a todos aquela ‘curtição’.

Ontem fiquei observando isso de maneira mais intensa. Aconteceu dentro de um coletivo urbano, destes que fazem a volta pela cidade: o chamado interbairros. Eu fazia um ‘tour’ citadino e, ao mesmo tempo experimentava uma diversidade musical impressionante.

Num determinado momento, a mistura acústica era tão grande, que eu arrepiei. Não suportei a ‘vibe’ daquele ‘trio elétrico’ improvisado. Isso sem falar naqueles que falam ao celular aos gritos, talvez por dificuldade no sinal; ou porque não sabem aumentar o volume do telefone. Sei lá. Cheguei a pensar que se o interlocutor estivesse a menos de 200 metros de distância, o telefone seria desnecessário, tal o volume com que se comunicam ao telefone móvel.

Desci do ônibus num local e numa ‘parada’ – parada? Onde mesmo? – que não eram as minhas eleitas inicialmente, mas foi a forma que encontrei de me ver livre, por algum tempo, daquele som enlouquecido que provinha dos aparelhos eletrônicos dos passageiros.

A vida tem sido assim, nos últimos tempos. Ninguém respeita mais o outro. Ninguém se importa muito com o outro. Não há limites. Ninguém se coloca no lugar do outro. Cada um faz aquilo que tem vontade, e se está bem para si próprio, os outros que se danem. Um egoísmo, um egocentrismo assustador, evidenciado por mais esta atitude desrespeitosa e abusiva dentro dos coletivos urbanos.

Do virtual para o real: posso ser seu amigo?





A ‘vida’ da gente nas redes sociais é bastante estranha. Eu já escrevi sobre isso, em uma postagem sobre o Facebook, e o quanto as pessoas se expõem, seja escrevendo esquisitices no ‘mural’, mandando mensagens ‘excêntricas’, ainda que ‘off ’, convidando centenas de criaturas para serem suas amigas – há até quem faça um certo concurso, uma verdadeira disputa para ser campeão de amigos ou seguidores – e, o melhor, você pode até ‘cutucar’ seus contatos.

E tem espaço para você declarar seus interesses: amigos, homens, mulheres, bicicletas, livros, poesias, cães, cobras enfim...Dizendo sobre eles você adquire as melhores condições de 'agregar' pessoas parecidas com você. Sei não se isso é prudente. É tão bom conviver com o diferente...

Ah, e também pode curtir. Tudo e todos se curtem. Tudo é passível de curtição. Uma foto, alguém curte. Uma frase, lá vem curtição; uma piada, é certo, alguém vai curtir. Até as lamúrias, queixas, sofrimentos acabam sendo curtidos.

Impressionante. O Facebook proporciona, com essa ferramenta, a ilusão de que a vida é pura curtição.

No Twitter, não é muito diferente. As criaturas seguem umas as outras. Recebem os twittes e retwitam uns aos outros, em assuntos variados, alguns que você não tem o mínimo interesse, mas acaba sendo obrigado a ler, pela insistência com que te enviam.

Ainda há outra coisa incrível no Twitter: as pessoas descrevem, ponto a ponto, hora a hora, minuto a minuto, o que estão fazendo, ou o que farão logo a seguir. Um pouco estranho esse hábito.

O Facebook proporciona às pessoas passarem horas – isso mesmo – horas bisbilhotando a vida alheia. Há uma intromissão incrível – autorizada e desautorizada, porque ninguém dimensiona, bem, o quanto está visível nessa rede social.

Fico imaginando uma transposição desta ‘realidade virtual’ das redes sociais para a ‘realidade factual’.

Conversando com uma amiga demos boas risadas imaginando como seria a nossa vida se adotássemos o padrão de comportamento que temos nas redes sociais virtuais.

Imaginem se um sujeito passa por você na rua e você decide cutucá-lo. E se for uma mulher, bem vestida, daquelas que arrasam no salto agulha – mesmo caminhando nas calçadas mal aprumadas de Pelotas – e você também a cutuca?

Dependendo do ‘cutuco’ você poderia ter como revide uma bordoada. Ou não. Poderia ser cutucada também...poderia dar samba! E, ai você, rapidamente, mudaria de status. Como? Sei lá, use a criatividade para imaginar.

Pensem: um grupo simpático joga conversa fora, ou discute sobre cinema ou futebol, e você, interessado, os interrompe, convidando-os para serem seus amigos. E insiste (você não pode mandar mensagens insistentes com esse convite, mas pode ser inconveniente suficientemente na 'realidade real', insistindo sem parar).

Ah, e nesse caso quem está sendo solicitado, não pode bloquear você.

Rimos imaginando que seguir poderia ser uma delícia, ou um martírio. Eu disse a ela: amiga, um bonitão cruza seu caminho e você passa a segui-lo. E ela me retrucou: em compensação, um ‘trubufu’ poderá fazer o mesmo com você.

É bom não esquecer esse detalhe... Sério, já pensou? O cara (ou a cara) te segue te segue e te segue e você faz o que para livrar-se dele? Não há bloqueio. Não há possibilidade de tirar o tipo da sua vida.

Pensei na questão da curtição. Ocorreu-me uma ideia compartilhada com a amiga: um artista de rua faz sua apresentação – o homem prateado, a estátua viva de Pelotas, por exemplo – e você cola nele um ‘post it’ com a expressão: curti. Seria o máximo né?

Ou, na balada, alguém chama sua atenção e, então, ‘post it’ nele: curti!

No calçadão, na sala de espera do médico, na sala de aula ou no trabalho, 'dale' curtição.

E sobre os seus interesses? Você os manifestaria num pequeno cartaz, ou num banner. Faria uma camiseta: interessado em vegetais!

E depois de tantos gargalhadas que demos, eu e a amiga,  hoje descobri um video superinteressante que está postado logo acima. Encontrei-o no youtube.

Ele traduz em imagens e texto a realidade virtual, transposta para a vida real.

Convidei a amiga para ver comigo. Demos muitas gargalhadas, personalizando criaturas nos protagonistas que aparecem no vídeo.

Convido-os a fazer o mesmo, e boa diversão.

Comida desperdiçada


Por apreciar a boa mesa, sempre que viajo, a trabalho ou a lazer, freqüento restaurantes que me são indicados por amigos ou familiares.  Quando retorno a alguma cidade costumo voltar àqueles restaurantes que ingressaram na minha 'lista de favoritos'.

Recentemente estive a trabalho numa das capitais brasileiras e fui a um desses restaurantes, cujo ambiente, atendimento e gastronomia são de qualidade ímpar.

Os pratos, desde os antepastos – que são atração à parte, com variedade de queijos, azeitonas, sardela napolitana, aspargos, aliche, carpaccios diveros, prosciutto di Parma – são muito bem servidos, verdadeiras porções familiares e, por isso, quando disponibilizados para uma pessoa ou para um casal, se constituem exagerados, mesmo para os maiores apetites.

É impossível dar conta da quantidade de comida servida por este restaurante.

Pois nesse dia em que jantamos por lá – eu e minha companhia - me vi refletindo sobre o desperdício de comida, que não ocorre somente nos restaurantes.

Enquanto milhões de brasileiros passam fome – mais de 14 milhões de pessoas, segundo dados do IBGE – o restante da população joga no lixo 30% de todos os alimentos comprados. Embora o consumo consciente de alimentos tenha relação econômica – custa caro alimentar-se –, ambiental – o alimento que vai para o lixo produz gás metano que é muito mais nocivo do que o gás carbônico -, o que me sensibilizava naquele instante era o aspecto social, a fome mesmo, a barriga vazia de tantos.

Eu me alimentava – de algum modo me esforçando para não deixar sobras – e lembrava dos milhares de brasileiros famintos. A janta começou a me fazer mal, especialmente porque vi ser recolhida das mesas ao meu redor uma quantidade de ‘sobras’ que podia alimentar mais duas ou três pessoas...Ninguém pedia para levar!!!

Na minha mesa a situação não foi diferente. Terminei a janta e havia metade de um ‘travessa’ com a iguaria que havíamos solicitado.

Quando o garçom se aproximou para retirar os pratos, perguntei-lhe o que faziam com o ‘resto da ingesta’, já sabendo qual seria a sua resposta que veio pronta e rápida: ‘vai fora’.

Perguntei se eu poderia levar, já que esse hábito, embora corriqueiro, eu não vislumbrara ali. Ele me disse que as pessoas realmente não tinham o costume de pedir para levar a sobra do alimento, mas que ele poderia preparar para mim uma embalagem para viagem.

Como eu estava hospedada em Hotel, e às vésperas de retornar a Pelotas, pensei oferecer aquele alimento a alguém, na rua, e dividi minha intenção com o garçom.

Ele se aproximou e me cochichou ao ouvido: eu não aguento ver tanta comida sobrar aqui...

Enquanto aguardava a conta e a embalagem com o alimento, escrevi uma pequena manifestação no formulário que havia sobre a mesa para pesquisa de qualidade. Deixei registrada, de maneira educada, a minha repulsa, sugerindo à direção da casa repensar a dimensão das porções.

Saí do restaurante carregando o recipiente e, nem bem tinha dado uns 30 passos, encontrei um senhor, morador de rua,  e ofereci-lhe o jantar, cheia de cuidados e com mil explicações para não lhe ofender.

Ele recebeu feliz e agradecido a minha doação. Só por isso eu consegui fazer melhor a minha própria digestão.

Pequeno poema da partida (*)



(*) Para R...


Não são nossos os filhos, são do mundo.

Mas é tão difícil aceitar essa condição.

Enquanto arrumo a mala da partida,

A saudade me corta o coração

Vai confiante amada filha

A sorte contigo vai estar

Eu ficarei te esperando

Contando os dias do retorno,

Para outra vez te abraçar .


Envelhecer é para profissionais


Envelhecer é um processo tão ordinário quanto rápido. Se mesmo com saúde não é possível deixar de se consternar com as limitações impostas pela idade, quando a doença se instala, então, os entraves da existência circunscrita aparecem. E não há coisa pior para um idoso, ao enfrentar esse processo com dignidade e lucidez, do que ver-se limitado pelos sintomas de patologias que, se não matam, afetam a sua autonomia.

Assistir aos progenitores chegarem aos 80 anos é uma dádiva. Mas é difícil não se desgostar em ver quem nos cuidou, orientou e educou enfrentando barreiras próprias da longevidade: dirigir com distrações; comer e babar-se; contar e recontar, repetir histórias da vida – talvez numa tentativa desesperada de manter viva a memória; teimar sobre não ter sido informado de algo; ou de não ter ido algum lugar. Tudo isso fazendo parte da rotina de quem fica avelhantado.

Outro dia, observando os passantes enquanto tomava um sorvete, no centro de Pelotas, percebi muitos idosos em vai-e-vem contínuo pelas calçadas do entorno. Alguns, visivelmente atingidos pelos incômodos da tremedeira própria de um Mal de Parkinson, precisavam de concentração superior para conduzir-se entre os ladrilhos soltos das esburacadas calçadas.

No mesmo dia – pela presença de um reservado olhar privilegiado – vi a dificuldade de uma senhora que cruzava a calçada da Andrade Neves esquina General Argolo, no sentido bairro centro. As pedras soltas do calçamento irregular tornando dificultosa a travessia para aquela senhora, que se socorria da bengala para tentar se equilibrar, me sensibilizou.

Ônibus sem rampas de acesso - com degraus cada vez mais altos, que dificultam a subida dos idosos; motoristas mal educados teimando dar partida nos coletivos quando os ‘velhos’ mal alcançaram o interior do carro; falta de paciência de alguns no trânsito diante da travessia dos velhinhos nas faixas de segurança; desrespeito em bancos e no comércio; descaso dos órgãos públicos no atendimento destes cidadãos, tudo isso presente e potencializado para aqueles cujas limitações físicas e os lapsos de memória próprios da idade ou das doenças estão presentes.

Pelotas ainda parece distante das condições mínimas exigidas para uma suave convivência harmoniosa dos idosos. Postura inexplicável ante a uma geração de tendência cada vez mais longeva.

Os desrespeitos e os descuidos, contudo, não retiram a alegria e a esperança de muitos octogenários. Eles são exemplo de como aproveitar a vida quando se dedicam às artes: pintam, esculpem, dançam; fazem teatro e aula de canto. Conservam amizades. Convivem em grupos. Estudam idiomas. Dedicam-se à leitura e à fotografia. Viajam. Freqüentam bailes; unem-se ‘forever’, em matrimônio. Amam. Resistem a alguns abandonos, e aos obstáculos que a idade impõe.

Travam batalhas diárias, e não se dão por vencidos. A vontade viver, de continuar vivendo está presente. É incontida.

Nesse momento da vida afeto, amizade, carinho e atenção são combustíveis importantes. É disso que precisam os idosos. É o que esperam dos mais jovens: boa dose de paciência e muita resignação. Quem já percebeu essa verdade compreende melhor o próprio envelhecimento.

Aplauso, uma estranha solução


Ela vinha sofrendo deste problema há algum tempo. Embora fosse uma bela mulher atraente e sensual, polida e refinada, trazia consigo a dificuldade de atingir orgasmo. Estivera casada durante longo período com o homem que entendia ser o seu ‘príncipe’ encantado. Mas o seu problema fulminara com esse amor. Tão logo separada entregou-se a experiência de amar diversos homens, na ânsia incontida de alcançar o prazer sexual.

Em muitas ocasiões ela percebera o desempenho primoroso de seus parceiros sexuais, mas ainda assim não alcançava o tão sonhado deleite.

Já estava desistindo de tentar, entregando-se, vencida, a realidade da frigidez, quando de maneira inesperada obteve algo que se assemelhava àquilo que tanto desejara, e que muitas vezes lhe havia sido descrito por amigas e conselheiras.

Estava numa festa de aniversário – 60 anos de um grande amigo – e por ocasião do “parabéns a você”, seguido de intensas palmas – que ela acompanhara de maneira totalmente desanimada, descobriu que alcançara, subitamente, o clímax sexual.

A resposta sexual àquele estímulo absolutamente descontextualizado, estranho à lascívia sexual, surpreendeu a mulher.

Interrompeu as palmas, e as repetiu,  e outra vez mais, e novamente, e foi-se acostumando à sensação prazerosa que o ato lhe proporcionava.

Sorridente, e extasiada, ela voltou para a casa feliz. Havia encontrado, enfim, o prazer sexual a tanto tempo perseguido.

Depois da intrigante descoberta entregou-se a muitos homens, e com cada um, as palmas durante o ato sexual lhe proporcionavam maravilhoso gozo delirante.

Mas ela, que sempre fora considerada uma mulher educada, agora enfrentava críticas severas por sua falta de polidez. É que nunca mais pudera entregar-se às palmas ao assistir um espetáculo teatral, um simples show musical, ao cantar o 'parabéns a você' em um aniversário qualquer.

As tais células especiais que possuía na palma da mão, uma vez estimuladas, provocavam-lhe as sensações próprias do orgasmo. E, nesses ambientes, e em muitas ocasiões, era impossível disfarçar o que sentia. A alternativa, então, era simplesmente não aplaudir.

As palmas transformaram-na numa mulher orgástica, porém, mal educada.

E você, quer experimentar? Bata palma aí! 

Crônica da Mãe (II)

Era um canteiro retangular e estava localizado no pátio da nossa casa, em meio às árvores de frutas, e da horta de verduras. A sombra do ‘salso chorão’ dava um ‘toque’ especial às flores.

‘Pacaretes’ – assim eram chamadas por ela aquelas flores – que mais tarde eu identificaria como ‘margaridas’. Tratadas com muito carinho, eram verdadeiramente cuidadas. O canteiro estava sempre bem aprumado. Nenhuma erva daninha tinha espaço ali. Com freqüência a terra era revolta e regada,  sempre preparada para o florescer dos ‘pacaretes’.

Certo dia, por uma razão que não lembro qual – mas certamente porque eu tivera alguma pretensão resistida, uma vontade não atendida – dirigi-me ao canteiro, cujas flores brancas de miolo amarelo eram abundantes, e fui arrancando, uma a uma, cada ‘corola’ – aquela parte formada pelo conjunto de pétalas, o pedaço mais vistoso da flor. Lembro, inclusive, a técnica utilizada. Colocando a ‘corola’ entre os dedos indicador e médio, com a palma da mão virada para cima, um movimento de baixo para o alto, e a florzinha estava ‘arrancada’ do seu suporte.

Não sei quantas ‘flores’ arranquei, mas o canteiro foi transformado numa enorme porção de hastes verdes com folhas, só folhas. Flores íntegras restaram  poucas. Abundavam as caídas ao solo. Ali a prova de toda a minha maldade.

Não demorou muito para que minha mãe percebesse o ocorrido e, então, eu ouvi sua voz pronunciando meu nome por completo - façanha que sempre traduz problemas, para quem tem nome composto como eu.

Quando me apresentei a ela, ouvi apenas a pergunta: Tu que fizeste isso? Por quê? Sem dar-lhe a resposta que ela merecia – me mantive em silêncio, certamente com a expressão de toda a minha perversidade estampada no rosto- e entāo percebi meu erro.
Ante a situação, minha mãe não tardou  fazer aquilo que lhe pareceu adequado – e que eu aprovaria, durante toda a minha vida: deu-me umas duas ou três palmadas.

Não lembro de ter derrubado uma lágrima sequer, até porque as palmadas não doeram nada, e foram bem merecidas.

Mas recordo ter visto minha mãe secar as suas.

As lágrimas da minha mãe foram muito doloridas. Ela atingiram-me de um modo tão intenso que o castigo que pretendi impor a ela, pela falta da sua atenção a um capricho qualquer meu, foi transformado na pior repreensão que lembro ter recebido em  minha convivência com ela.

Anos mais tarde ganhei de presente da minha mãe um quadro, por ela pintado, que retrata um grande ramalhete de garbosos ‘pacaretes’.

Com certeza, é o quadro mais bonito que hoje enfeita a sala da minha casa.

quarta-feira, novembro 09, 2011

Escape



Calça jeans surrada, camiseta branca e casaquinho...
Nos pés uma sapatilha, bege, simplesinha.
Seu caminhar comunica e o movimento do rabo de cavalo evidencia.
Bobo, olho-a seguir seu rumo
Para onde estaria se deslocando, afinal?
De repente o som eclode, outra vez.
Cega-me o estonteante zunido.
A imagem dela vai escapando de mim...



Sintomas da velhice


O processo de envelhecimento é inexorável. Todos sabem disso. E se ainda não descobriram, logo começarão a desvendar.

São inúmeras as evidências da velhice. Variados os sintomas. Há alguns que são prosaicos, do cotidiano, são mesmo do senso comum.

O indício mais evidente é quando você se depara reproduzindo muitas das falas e das atitudes da sua mãe, isso mesmo, aquelas que você abominou um dia.

Esse é o primeiro alerta.

Mas há outros não necessariamente na ordem que listarei, porque o que importa, mesmo, é que eles se fazem presentes.

Você quer chamar alguém da sua casa, mas, antes de conseguir pronunciar o nome do vivente, nomina outras duas ou três criaturas. Assim: Oh Marcelo, não, Oh Pedro, nada, Cristiano.

Ok. Foi só um engano, você pensará na primeira vez. É o cansaço de um dia corrido. Que nada, essa atitude vai se reproduzir daí em diante em muitas ocasiões.

Têm outras ‘cositas más’. Chega o final de semana, e você só pensa em ficar acomodado em casa, curtindo a família , alimentando a solidão ou descansando com o companheiro. Você só quer descansar.

Sair para a rua? Para quê? Se for inverno, então, bah, a vontade de ficar em casa aumenta. E aquela vontade que se tinha de ir para a rua, para a boate (hoje, balada)? Se perdeu no tempo.

Mesmo quando por teimosia você insiste em sair de casa, para fazer um programa, a prova da velhice aparece: chega uma hora e você SÓ pensa em chegar a casa, tirar aquela “farda’ – sim, a roupa já não te enfeita, ela pesa – arrancar o sapato e, enfim, espichar-se na cama.

Falando em sapato, quando a idade vai aumentando, os pés passam por um processo degenerativo, só pode ser isso, porque calçar um sapato vira um martírio. Sério, não se encontra um calçado sequer que possa proporcionar algum conforto. Pra falar a verdade, existem os chamados "usaflex", mas vestir um desses é o mesmo que colocar um cartaz nas costas com a inscrição: envelheci.

Também se experimenta com a idade alguns momentos em que se crê que nem tudo está perdido, mas são muitos efêmeros esses instantes. Tá aí outra sintomatologia da idade: tudo se acelera, a vida passa rápido demais. Todos os bons momentos duram tão pouco... Os que mais perduram são problemáticos...

A gente tem dores e odores. Cheguei a conclusão que eu era mais cheirosa quando mais moça. A velhice tem uma fragrância peculiar. Não é ruim, mas é bizarra.

Lembra quando você jantava a noite e comia massa, carne ou pizza? Recorda que não importava o horário em que você digeria esses alimentos? Lembra? Pois então trate de esquecer. Não existe a mínima condição de você continuar se comportando assim quando a idade chega. Se você comer carne à noite, com massa, por exemplo, pode desistir de dormir. Você não conseguirá.

E se você passou da conta na bebida, tomando além da quantidade que o seu organismo é capaz de processar - e ele cada vez processa menos, e com menor velocidade - e fez isso para esquecer, por um momento, o peso da idade, e tentar curtir um resquício de juventude, o outro dia vai lhe proporcionar um grande arrependimento. Você estará imprestável. O dia passará, e você se sentirá um passarinho tal a sua fragilidade ante à ressaca suportada.

Outro aspecto digno de nota é o seguinte: quando você envelhece, o grau das lentes de seus óculos aumenta. Quem não usava lentes passará a usar também. Ninguém ultrapassa os 45 ou 50 anos sem uma lente no rosto. E ai olhar-se no espelho se torna uma tragédia. Passou o tempo, você perdeu a noção sobre quem você se tornou. Seu rosto traz rugas impressionantes. Há marcas de expressão que parecem entalhadas na madeira. E surgem pelos, sim, pelos no rosto. Você parece a mulher barbada... Alguns precisam ser removidos quase em processo cirúrgico, saem lá de dentro. Como pode?

Nem preciso dizer que a força da gravidade empresta uma contribuição digna de nota. Tudo, absolutamente tudo despenca. Até o pescoço, que você tinha orgulho de mostrar, agora serve para levar um lenço bem enrolado, para esconder as evidências da idade.

É muito difícil aceitar esse ‘processo’ na boa. Isso que eu estou omitindo outros pequenos probleminhas que os leitores poderão apontar - ou pelo menos pensar.

E para coroar a percepção sobre o fato de estar ficando velha a maior evidência se descortinou para mim hoje: o companheiro chega em casa, com ingressos do show do Roberto Carlos, e com 'voucher' de excursão para Porto Alegre – de ônibus (para poder ir e voltar dormindo), num bate e volta daqueles - E EU FIQUEI FELIZ!

Só falta agora, no ônibus, a parceria ir cantando, de mãos dadas, EU TENHO TANTO LHE FALAR... e isso também me deixar contente!

Crônica da Mãe (I)


Casa cheia. Cinco filhos, o marido, a mãe, uma tia. Empregada e enfermeira. Essas eram as pessoas que habitavam a casa que ela gerenciava.

Sem nunca deixar de trabalhar fora – dela eu certamente herdei o gosto pela sala de aula – e muito fazer ‘dentro de casa’, minha mãe foi e continua sendo uma grande mulher.

Embora a vida lhe tivesse reservado muitas circunstâncias para que ela a enxergasse como um ‘fardo’, jamais vi minha mãe reclamar.

Se alguma queixa da minha mãe eu tenho na memória, ela se reduz a algumas lamentações sobre uma dor nas costas, certamente pela direção do veículo pesado demais – uma Rural, sem direção hidráulica, por óbvio – que ela conduzia, diariamente, para atender a todos os afazeres domésticos.

Esposa dedicada, mãe atenciosa. Professora caprichosa. Motorista prudente. Filha paciente e afetiva. Sobrinha amiga. Essa é a visão que eu tenho da minha mãe na época difícil da ‘criação’ dos filhos.

E se aqueles tempos eram bicudos - havia preocupações com a educação e formação dos filhos, com a doença da mãe e outros pequenos problemas do cotidiano, aliados ao seu nervosismo ante a ‘carestia da vida’ - ela não deixou de proporcionar, a mim e aos meus irmãos, uma infância feliz, e uma adolescência ‘mais ou menos’ responsável.

A ternura era marca registrada na nossa casa. E hoje eu sei que a grande responsável por isso fora minha mãe. Ela foi capaz de contribuir, e muito, para que os filhos se tornassem adultos íntegros.

Muitas vezes observei minha mãe debruçada sobre cartazes e matrizes, ‘rodando’ no mimeógrafo os trabalhos dos seus alunos. O cheiro de álcool perfumava o ambiente...Tenho lembrança dos cadernos com suas aulas preparadas, num capricho impressionante.

Em outros momentos, pedalando a máquina de costura, fazendo as roupas que eu 'cismava' usar no final de semana. Foram calças, japonas, saias, vestidos e camisas. Muitas vezes eu vesti, orgulhosa, as costuras da minha mãe.

Eu cosumava acompanhá-la  nas compras da casa. Até na feira da Bento Gonçalves, aos sábados pela manhã, muito cedo, eu me fazia presente. Sacolas de supermercado recheadas dos produtos necessários à manutenção de tantas pessoas que viviam conosco.

E se houvesse um tempo para uma ‘arejada’ empreendendo viagem na companhia dos filhos e do marido, lá estava ela na organização de tudo, sem nunca descuidar da assistência necessária à avó.

E sobrava tempo para muito mais. Organizar pescarias, por exemplo. Não foram poucas as vezes que ela nos levou – filhos e amigos – para ‘desestressar’ na Barra do Laranjal, e na Reserva do Taim, em longas pescarias cujos registros fotográficos não permitem esquecer.

Hoje, lembrando dos feitos da minha mãe, recordei que ela sempre gostou de flores. Um elemento presente em nossa casa. Não guardo na memória vasos vazios. Ao contrário, estavam sempre floridos.

Comprar flores na ‘florista’ – não em floricultura, como hoje se faz – junto da mãe era uma tarefa semanal prazerosa.

Ali na Avenida Fernando Osório, comprávamos a flor cujo significado traduz muito do que a mãe representava em nossa casa: sensibilidade, amor, dedicação, quietude, simplicidade e alegria.

Eram gérberas que nós comprávamos, e elas enfeitavam lindamente os cômodos da grande casa...

Observando minha mãe perdendo, pouco a pouco, a memória e com dificuldades de organizar e reger a sua vida autonomamente, me impulsiono a assisti-la quanto mais eu possa, me fazendo tão presente e tão constante quando ela foi um dia para mim...

É o mínimo que eu posso fazer por minha mãe.