Conheço um casal que conserva uma relação homoafetiva. Ambos tiveram, no passado, relações heterossexuais, mas estão juntos há mais de 15 anos já – tempo superior a das antigas relações hetero que mantiveram. Sendo casal, eles se amam, brigam, discutem a relação. Rola ciúme. Fazem feira. Vão ao supermercado. Convivem com os familiares e amigos. Divertem-se com os sobrinhos. Viajam. Exercem seus afazeres profissionais com zelo. Estudam. Mas ainda chamam atenção em alguns lugares; sofrem discriminações veladas, ou mais escancaradas em determinados ambientes ou segmentos sociais.
Aqui em Pelotas, outro dia, em um restaurante bem freqüentado, eram perceptíveis os olhares de muitas pessoas, lançados sobre um casal ‘homo’ que compartilhava mesa com outro casal ‘hetero’.
Duas senhoras e seus respectivos maridos não tiravam os olhos deles. Estavam mais interessados na diversão e no papo da mesa ao lado do que no seu próprio lazer ou jantar. Uma das senhoras não resistiu e disse à outra:
"Admiro-me de quem ainda sai para jantar com uns tipos assim".
Os ‘tipos assim’ a que ela se referia eram os dois homens, na verdade um casal. Entre eles, afora algumas delicadezas comuns, como servir a bebida, ou lançar mútuos olhares afetuosos, havia comportamento absolutamente formal. Nenhuma 'afetação' capaz de explicar, sob algum remoto pretexto, aquela insurgente observação da senhora pelotina.
Outro dia, passando pela calçada da Rua Dom Pedro II, olhei para os jardins do pátio interno do Prédio da Reitoria da UCPel e vi, sentados num banco, dois jovens do sexo masculino, namorando entre as árvores. Selavam o encontro ou a despedida com impudico beijo ardente. O beijo não passou despercebido. De uma janela do prédio da Reitoria, dois outros rapazes comentavam, entre risos, a cena.
Meu pai conta ter presenciado, mais de uma vez, em tradicional clube social pelotense, a diretoria ‘dar bola preta’ a cidadão que buscasse associar-se, apresentando como dependente alguém sobre quem recaíssem dúvidas acerca de seus verdadeiros vínculos com o pretenso associado.
Muitas vezes o dependente – na verdade companheiro – vinha disfarçado de sobrinho ou ‘filho de criação’. E a dúvida bastava para negar a associação e justificar ‘a bola preta’ - a não aceitação do candidato a sócio. Será que ainda é assim?
Nas escolas, entre os adolescentes, relatos de ‘bullying’ discriminatório também estão presentes. Sei de duas meninas alvo do ódio coletivo dos colegas por causa do seu 'escancarado romance'. Sei também do quanto isso tem trazido sofrimento e desgosto aos envolvidos. A realidade não é diferente nas universidades. Mesmo nesses ambientes ainda se observa muito de discriminação.
Dificuldades para obter emprego e até aprovação em concurso público já foram relatadas por quem se vê em 'situação homossexual'.
Embora haja proteção jurídica dispensada às relações homoafetivas, sob a justificativa da necessidade de serem observados os princípios constitucionais vigentes, como o respeito à dignidade das pessoas, à liberdade e à igualdade, parece estar ocorrendo certo recrudescimento das reações discriminatórias contra os 'homoafetivos'. Ainda temos incompreensíveis resistências sociais ao reconhecimento desta realidade. É de perguntar-se: até quando?
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