quinta-feira, novembro 10, 2011

Sem noção


Andar de ônibus em Pelotas é um grande desafio, por razões óbvias. Primeiro porque dificilmente os ônibus cumprem os horários de passagem. É realmente impossível acertar a hora em que o ônibus que a gente precisa ‘pegar’ vai passar. À dois, porque nunca se tem bem certeza se o ônibus pretendido passa, e pára, na parada que elegemos para aguardá-lo. Não existem informações nas paradas de ônibus em Pelotas, nem sobre as linhas, nem sobre os horários. O que existe é uma incógnita total.

Bem, para ser bem honesta, não existem sequer paradas de ônibus...

Além disso, em alguns horários e linhas, a superlotação aparece. É um empurra-empurra, um aperta aqui e acolá, sempre potencilizados pelas frenagens bruscas, de inopino, que os motoristas realizam para um deleite pessoal e vil, especialmente porque eles tem o volante do ônibus para se agarrar.

Não fosse tudo isso já insuportável, agora as pessoas resolveram se esparramar no ônibus, adotando uma atitude para lá de espaçosa, aborrecida, um verdadeiro desrespeito aos demais passageiros que ali estão.

Eu falo de uma ‘mania’ que toma conta do transporte coletiva: ouvir música, dos telefones ou MP3, ou qualquer coisa semelhante, sem fones de ouvido.

É isso mesmo: as pessoas, dentro do ônibus, sem importarem-se de incomodar quem está a fim de ficar quieto, e no silêncio, colocam seus aparelhos eletrônicos a funcionar a pleno, obrigando, mesmo quem não quer, a escutar música de gosto duvidoso. Uma atitude de gente espaçosa demais...mal educada demais.

Há um diversidade de sons: rola funk, pagode universitário, forró, rock, heavy metal, sertanejo, samba, e outros tantos estilos musicais para os quais não tenho sequer denominação. Eles formam um conjunto nada harmonioso de sons e tons que se misturam dentro do transporte coletivo, obrigando a todos aquela ‘curtição’.

Ontem fiquei observando isso de maneira mais intensa. Aconteceu dentro de um coletivo urbano, destes que fazem a volta pela cidade: o chamado interbairros. Eu fazia um ‘tour’ citadino e, ao mesmo tempo experimentava uma diversidade musical impressionante.

Num determinado momento, a mistura acústica era tão grande, que eu arrepiei. Não suportei a ‘vibe’ daquele ‘trio elétrico’ improvisado. Isso sem falar naqueles que falam ao celular aos gritos, talvez por dificuldade no sinal; ou porque não sabem aumentar o volume do telefone. Sei lá. Cheguei a pensar que se o interlocutor estivesse a menos de 200 metros de distância, o telefone seria desnecessário, tal o volume com que se comunicam ao telefone móvel.

Desci do ônibus num local e numa ‘parada’ – parada? Onde mesmo? – que não eram as minhas eleitas inicialmente, mas foi a forma que encontrei de me ver livre, por algum tempo, daquele som enlouquecido que provinha dos aparelhos eletrônicos dos passageiros.

A vida tem sido assim, nos últimos tempos. Ninguém respeita mais o outro. Ninguém se importa muito com o outro. Não há limites. Ninguém se coloca no lugar do outro. Cada um faz aquilo que tem vontade, e se está bem para si próprio, os outros que se danem. Um egoísmo, um egocentrismo assustador, evidenciado por mais esta atitude desrespeitosa e abusiva dentro dos coletivos urbanos.

Do virtual para o real: posso ser seu amigo?





A ‘vida’ da gente nas redes sociais é bastante estranha. Eu já escrevi sobre isso, em uma postagem sobre o Facebook, e o quanto as pessoas se expõem, seja escrevendo esquisitices no ‘mural’, mandando mensagens ‘excêntricas’, ainda que ‘off ’, convidando centenas de criaturas para serem suas amigas – há até quem faça um certo concurso, uma verdadeira disputa para ser campeão de amigos ou seguidores – e, o melhor, você pode até ‘cutucar’ seus contatos.

E tem espaço para você declarar seus interesses: amigos, homens, mulheres, bicicletas, livros, poesias, cães, cobras enfim...Dizendo sobre eles você adquire as melhores condições de 'agregar' pessoas parecidas com você. Sei não se isso é prudente. É tão bom conviver com o diferente...

Ah, e também pode curtir. Tudo e todos se curtem. Tudo é passível de curtição. Uma foto, alguém curte. Uma frase, lá vem curtição; uma piada, é certo, alguém vai curtir. Até as lamúrias, queixas, sofrimentos acabam sendo curtidos.

Impressionante. O Facebook proporciona, com essa ferramenta, a ilusão de que a vida é pura curtição.

No Twitter, não é muito diferente. As criaturas seguem umas as outras. Recebem os twittes e retwitam uns aos outros, em assuntos variados, alguns que você não tem o mínimo interesse, mas acaba sendo obrigado a ler, pela insistência com que te enviam.

Ainda há outra coisa incrível no Twitter: as pessoas descrevem, ponto a ponto, hora a hora, minuto a minuto, o que estão fazendo, ou o que farão logo a seguir. Um pouco estranho esse hábito.

O Facebook proporciona às pessoas passarem horas – isso mesmo – horas bisbilhotando a vida alheia. Há uma intromissão incrível – autorizada e desautorizada, porque ninguém dimensiona, bem, o quanto está visível nessa rede social.

Fico imaginando uma transposição desta ‘realidade virtual’ das redes sociais para a ‘realidade factual’.

Conversando com uma amiga demos boas risadas imaginando como seria a nossa vida se adotássemos o padrão de comportamento que temos nas redes sociais virtuais.

Imaginem se um sujeito passa por você na rua e você decide cutucá-lo. E se for uma mulher, bem vestida, daquelas que arrasam no salto agulha – mesmo caminhando nas calçadas mal aprumadas de Pelotas – e você também a cutuca?

Dependendo do ‘cutuco’ você poderia ter como revide uma bordoada. Ou não. Poderia ser cutucada também...poderia dar samba! E, ai você, rapidamente, mudaria de status. Como? Sei lá, use a criatividade para imaginar.

Pensem: um grupo simpático joga conversa fora, ou discute sobre cinema ou futebol, e você, interessado, os interrompe, convidando-os para serem seus amigos. E insiste (você não pode mandar mensagens insistentes com esse convite, mas pode ser inconveniente suficientemente na 'realidade real', insistindo sem parar).

Ah, e nesse caso quem está sendo solicitado, não pode bloquear você.

Rimos imaginando que seguir poderia ser uma delícia, ou um martírio. Eu disse a ela: amiga, um bonitão cruza seu caminho e você passa a segui-lo. E ela me retrucou: em compensação, um ‘trubufu’ poderá fazer o mesmo com você.

É bom não esquecer esse detalhe... Sério, já pensou? O cara (ou a cara) te segue te segue e te segue e você faz o que para livrar-se dele? Não há bloqueio. Não há possibilidade de tirar o tipo da sua vida.

Pensei na questão da curtição. Ocorreu-me uma ideia compartilhada com a amiga: um artista de rua faz sua apresentação – o homem prateado, a estátua viva de Pelotas, por exemplo – e você cola nele um ‘post it’ com a expressão: curti. Seria o máximo né?

Ou, na balada, alguém chama sua atenção e, então, ‘post it’ nele: curti!

No calçadão, na sala de espera do médico, na sala de aula ou no trabalho, 'dale' curtição.

E sobre os seus interesses? Você os manifestaria num pequeno cartaz, ou num banner. Faria uma camiseta: interessado em vegetais!

E depois de tantos gargalhadas que demos, eu e a amiga,  hoje descobri um video superinteressante que está postado logo acima. Encontrei-o no youtube.

Ele traduz em imagens e texto a realidade virtual, transposta para a vida real.

Convidei a amiga para ver comigo. Demos muitas gargalhadas, personalizando criaturas nos protagonistas que aparecem no vídeo.

Convido-os a fazer o mesmo, e boa diversão.

Comida desperdiçada


Por apreciar a boa mesa, sempre que viajo, a trabalho ou a lazer, freqüento restaurantes que me são indicados por amigos ou familiares.  Quando retorno a alguma cidade costumo voltar àqueles restaurantes que ingressaram na minha 'lista de favoritos'.

Recentemente estive a trabalho numa das capitais brasileiras e fui a um desses restaurantes, cujo ambiente, atendimento e gastronomia são de qualidade ímpar.

Os pratos, desde os antepastos – que são atração à parte, com variedade de queijos, azeitonas, sardela napolitana, aspargos, aliche, carpaccios diveros, prosciutto di Parma – são muito bem servidos, verdadeiras porções familiares e, por isso, quando disponibilizados para uma pessoa ou para um casal, se constituem exagerados, mesmo para os maiores apetites.

É impossível dar conta da quantidade de comida servida por este restaurante.

Pois nesse dia em que jantamos por lá – eu e minha companhia - me vi refletindo sobre o desperdício de comida, que não ocorre somente nos restaurantes.

Enquanto milhões de brasileiros passam fome – mais de 14 milhões de pessoas, segundo dados do IBGE – o restante da população joga no lixo 30% de todos os alimentos comprados. Embora o consumo consciente de alimentos tenha relação econômica – custa caro alimentar-se –, ambiental – o alimento que vai para o lixo produz gás metano que é muito mais nocivo do que o gás carbônico -, o que me sensibilizava naquele instante era o aspecto social, a fome mesmo, a barriga vazia de tantos.

Eu me alimentava – de algum modo me esforçando para não deixar sobras – e lembrava dos milhares de brasileiros famintos. A janta começou a me fazer mal, especialmente porque vi ser recolhida das mesas ao meu redor uma quantidade de ‘sobras’ que podia alimentar mais duas ou três pessoas...Ninguém pedia para levar!!!

Na minha mesa a situação não foi diferente. Terminei a janta e havia metade de um ‘travessa’ com a iguaria que havíamos solicitado.

Quando o garçom se aproximou para retirar os pratos, perguntei-lhe o que faziam com o ‘resto da ingesta’, já sabendo qual seria a sua resposta que veio pronta e rápida: ‘vai fora’.

Perguntei se eu poderia levar, já que esse hábito, embora corriqueiro, eu não vislumbrara ali. Ele me disse que as pessoas realmente não tinham o costume de pedir para levar a sobra do alimento, mas que ele poderia preparar para mim uma embalagem para viagem.

Como eu estava hospedada em Hotel, e às vésperas de retornar a Pelotas, pensei oferecer aquele alimento a alguém, na rua, e dividi minha intenção com o garçom.

Ele se aproximou e me cochichou ao ouvido: eu não aguento ver tanta comida sobrar aqui...

Enquanto aguardava a conta e a embalagem com o alimento, escrevi uma pequena manifestação no formulário que havia sobre a mesa para pesquisa de qualidade. Deixei registrada, de maneira educada, a minha repulsa, sugerindo à direção da casa repensar a dimensão das porções.

Saí do restaurante carregando o recipiente e, nem bem tinha dado uns 30 passos, encontrei um senhor, morador de rua,  e ofereci-lhe o jantar, cheia de cuidados e com mil explicações para não lhe ofender.

Ele recebeu feliz e agradecido a minha doação. Só por isso eu consegui fazer melhor a minha própria digestão.

Pequeno poema da partida (*)



(*) Para R...


Não são nossos os filhos, são do mundo.

Mas é tão difícil aceitar essa condição.

Enquanto arrumo a mala da partida,

A saudade me corta o coração

Vai confiante amada filha

A sorte contigo vai estar

Eu ficarei te esperando

Contando os dias do retorno,

Para outra vez te abraçar .


Envelhecer é para profissionais


Envelhecer é um processo tão ordinário quanto rápido. Se mesmo com saúde não é possível deixar de se consternar com as limitações impostas pela idade, quando a doença se instala, então, os entraves da existência circunscrita aparecem. E não há coisa pior para um idoso, ao enfrentar esse processo com dignidade e lucidez, do que ver-se limitado pelos sintomas de patologias que, se não matam, afetam a sua autonomia.

Assistir aos progenitores chegarem aos 80 anos é uma dádiva. Mas é difícil não se desgostar em ver quem nos cuidou, orientou e educou enfrentando barreiras próprias da longevidade: dirigir com distrações; comer e babar-se; contar e recontar, repetir histórias da vida – talvez numa tentativa desesperada de manter viva a memória; teimar sobre não ter sido informado de algo; ou de não ter ido algum lugar. Tudo isso fazendo parte da rotina de quem fica avelhantado.

Outro dia, observando os passantes enquanto tomava um sorvete, no centro de Pelotas, percebi muitos idosos em vai-e-vem contínuo pelas calçadas do entorno. Alguns, visivelmente atingidos pelos incômodos da tremedeira própria de um Mal de Parkinson, precisavam de concentração superior para conduzir-se entre os ladrilhos soltos das esburacadas calçadas.

No mesmo dia – pela presença de um reservado olhar privilegiado – vi a dificuldade de uma senhora que cruzava a calçada da Andrade Neves esquina General Argolo, no sentido bairro centro. As pedras soltas do calçamento irregular tornando dificultosa a travessia para aquela senhora, que se socorria da bengala para tentar se equilibrar, me sensibilizou.

Ônibus sem rampas de acesso - com degraus cada vez mais altos, que dificultam a subida dos idosos; motoristas mal educados teimando dar partida nos coletivos quando os ‘velhos’ mal alcançaram o interior do carro; falta de paciência de alguns no trânsito diante da travessia dos velhinhos nas faixas de segurança; desrespeito em bancos e no comércio; descaso dos órgãos públicos no atendimento destes cidadãos, tudo isso presente e potencializado para aqueles cujas limitações físicas e os lapsos de memória próprios da idade ou das doenças estão presentes.

Pelotas ainda parece distante das condições mínimas exigidas para uma suave convivência harmoniosa dos idosos. Postura inexplicável ante a uma geração de tendência cada vez mais longeva.

Os desrespeitos e os descuidos, contudo, não retiram a alegria e a esperança de muitos octogenários. Eles são exemplo de como aproveitar a vida quando se dedicam às artes: pintam, esculpem, dançam; fazem teatro e aula de canto. Conservam amizades. Convivem em grupos. Estudam idiomas. Dedicam-se à leitura e à fotografia. Viajam. Freqüentam bailes; unem-se ‘forever’, em matrimônio. Amam. Resistem a alguns abandonos, e aos obstáculos que a idade impõe.

Travam batalhas diárias, e não se dão por vencidos. A vontade viver, de continuar vivendo está presente. É incontida.

Nesse momento da vida afeto, amizade, carinho e atenção são combustíveis importantes. É disso que precisam os idosos. É o que esperam dos mais jovens: boa dose de paciência e muita resignação. Quem já percebeu essa verdade compreende melhor o próprio envelhecimento.

Aplauso, uma estranha solução


Ela vinha sofrendo deste problema há algum tempo. Embora fosse uma bela mulher atraente e sensual, polida e refinada, trazia consigo a dificuldade de atingir orgasmo. Estivera casada durante longo período com o homem que entendia ser o seu ‘príncipe’ encantado. Mas o seu problema fulminara com esse amor. Tão logo separada entregou-se a experiência de amar diversos homens, na ânsia incontida de alcançar o prazer sexual.

Em muitas ocasiões ela percebera o desempenho primoroso de seus parceiros sexuais, mas ainda assim não alcançava o tão sonhado deleite.

Já estava desistindo de tentar, entregando-se, vencida, a realidade da frigidez, quando de maneira inesperada obteve algo que se assemelhava àquilo que tanto desejara, e que muitas vezes lhe havia sido descrito por amigas e conselheiras.

Estava numa festa de aniversário – 60 anos de um grande amigo – e por ocasião do “parabéns a você”, seguido de intensas palmas – que ela acompanhara de maneira totalmente desanimada, descobriu que alcançara, subitamente, o clímax sexual.

A resposta sexual àquele estímulo absolutamente descontextualizado, estranho à lascívia sexual, surpreendeu a mulher.

Interrompeu as palmas, e as repetiu,  e outra vez mais, e novamente, e foi-se acostumando à sensação prazerosa que o ato lhe proporcionava.

Sorridente, e extasiada, ela voltou para a casa feliz. Havia encontrado, enfim, o prazer sexual a tanto tempo perseguido.

Depois da intrigante descoberta entregou-se a muitos homens, e com cada um, as palmas durante o ato sexual lhe proporcionavam maravilhoso gozo delirante.

Mas ela, que sempre fora considerada uma mulher educada, agora enfrentava críticas severas por sua falta de polidez. É que nunca mais pudera entregar-se às palmas ao assistir um espetáculo teatral, um simples show musical, ao cantar o 'parabéns a você' em um aniversário qualquer.

As tais células especiais que possuía na palma da mão, uma vez estimuladas, provocavam-lhe as sensações próprias do orgasmo. E, nesses ambientes, e em muitas ocasiões, era impossível disfarçar o que sentia. A alternativa, então, era simplesmente não aplaudir.

As palmas transformaram-na numa mulher orgástica, porém, mal educada.

E você, quer experimentar? Bata palma aí! 

Crônica da Mãe (II)

Era um canteiro retangular e estava localizado no pátio da nossa casa, em meio às árvores de frutas, e da horta de verduras. A sombra do ‘salso chorão’ dava um ‘toque’ especial às flores.

‘Pacaretes’ – assim eram chamadas por ela aquelas flores – que mais tarde eu identificaria como ‘margaridas’. Tratadas com muito carinho, eram verdadeiramente cuidadas. O canteiro estava sempre bem aprumado. Nenhuma erva daninha tinha espaço ali. Com freqüência a terra era revolta e regada,  sempre preparada para o florescer dos ‘pacaretes’.

Certo dia, por uma razão que não lembro qual – mas certamente porque eu tivera alguma pretensão resistida, uma vontade não atendida – dirigi-me ao canteiro, cujas flores brancas de miolo amarelo eram abundantes, e fui arrancando, uma a uma, cada ‘corola’ – aquela parte formada pelo conjunto de pétalas, o pedaço mais vistoso da flor. Lembro, inclusive, a técnica utilizada. Colocando a ‘corola’ entre os dedos indicador e médio, com a palma da mão virada para cima, um movimento de baixo para o alto, e a florzinha estava ‘arrancada’ do seu suporte.

Não sei quantas ‘flores’ arranquei, mas o canteiro foi transformado numa enorme porção de hastes verdes com folhas, só folhas. Flores íntegras restaram  poucas. Abundavam as caídas ao solo. Ali a prova de toda a minha maldade.

Não demorou muito para que minha mãe percebesse o ocorrido e, então, eu ouvi sua voz pronunciando meu nome por completo - façanha que sempre traduz problemas, para quem tem nome composto como eu.

Quando me apresentei a ela, ouvi apenas a pergunta: Tu que fizeste isso? Por quê? Sem dar-lhe a resposta que ela merecia – me mantive em silêncio, certamente com a expressão de toda a minha perversidade estampada no rosto- e entāo percebi meu erro.
Ante a situação, minha mãe não tardou  fazer aquilo que lhe pareceu adequado – e que eu aprovaria, durante toda a minha vida: deu-me umas duas ou três palmadas.

Não lembro de ter derrubado uma lágrima sequer, até porque as palmadas não doeram nada, e foram bem merecidas.

Mas recordo ter visto minha mãe secar as suas.

As lágrimas da minha mãe foram muito doloridas. Ela atingiram-me de um modo tão intenso que o castigo que pretendi impor a ela, pela falta da sua atenção a um capricho qualquer meu, foi transformado na pior repreensão que lembro ter recebido em  minha convivência com ela.

Anos mais tarde ganhei de presente da minha mãe um quadro, por ela pintado, que retrata um grande ramalhete de garbosos ‘pacaretes’.

Com certeza, é o quadro mais bonito que hoje enfeita a sala da minha casa.

quarta-feira, novembro 09, 2011

Escape



Calça jeans surrada, camiseta branca e casaquinho...
Nos pés uma sapatilha, bege, simplesinha.
Seu caminhar comunica e o movimento do rabo de cavalo evidencia.
Bobo, olho-a seguir seu rumo
Para onde estaria se deslocando, afinal?
De repente o som eclode, outra vez.
Cega-me o estonteante zunido.
A imagem dela vai escapando de mim...



Sintomas da velhice


O processo de envelhecimento é inexorável. Todos sabem disso. E se ainda não descobriram, logo começarão a desvendar.

São inúmeras as evidências da velhice. Variados os sintomas. Há alguns que são prosaicos, do cotidiano, são mesmo do senso comum.

O indício mais evidente é quando você se depara reproduzindo muitas das falas e das atitudes da sua mãe, isso mesmo, aquelas que você abominou um dia.

Esse é o primeiro alerta.

Mas há outros não necessariamente na ordem que listarei, porque o que importa, mesmo, é que eles se fazem presentes.

Você quer chamar alguém da sua casa, mas, antes de conseguir pronunciar o nome do vivente, nomina outras duas ou três criaturas. Assim: Oh Marcelo, não, Oh Pedro, nada, Cristiano.

Ok. Foi só um engano, você pensará na primeira vez. É o cansaço de um dia corrido. Que nada, essa atitude vai se reproduzir daí em diante em muitas ocasiões.

Têm outras ‘cositas más’. Chega o final de semana, e você só pensa em ficar acomodado em casa, curtindo a família , alimentando a solidão ou descansando com o companheiro. Você só quer descansar.

Sair para a rua? Para quê? Se for inverno, então, bah, a vontade de ficar em casa aumenta. E aquela vontade que se tinha de ir para a rua, para a boate (hoje, balada)? Se perdeu no tempo.

Mesmo quando por teimosia você insiste em sair de casa, para fazer um programa, a prova da velhice aparece: chega uma hora e você SÓ pensa em chegar a casa, tirar aquela “farda’ – sim, a roupa já não te enfeita, ela pesa – arrancar o sapato e, enfim, espichar-se na cama.

Falando em sapato, quando a idade vai aumentando, os pés passam por um processo degenerativo, só pode ser isso, porque calçar um sapato vira um martírio. Sério, não se encontra um calçado sequer que possa proporcionar algum conforto. Pra falar a verdade, existem os chamados "usaflex", mas vestir um desses é o mesmo que colocar um cartaz nas costas com a inscrição: envelheci.

Também se experimenta com a idade alguns momentos em que se crê que nem tudo está perdido, mas são muitos efêmeros esses instantes. Tá aí outra sintomatologia da idade: tudo se acelera, a vida passa rápido demais. Todos os bons momentos duram tão pouco... Os que mais perduram são problemáticos...

A gente tem dores e odores. Cheguei a conclusão que eu era mais cheirosa quando mais moça. A velhice tem uma fragrância peculiar. Não é ruim, mas é bizarra.

Lembra quando você jantava a noite e comia massa, carne ou pizza? Recorda que não importava o horário em que você digeria esses alimentos? Lembra? Pois então trate de esquecer. Não existe a mínima condição de você continuar se comportando assim quando a idade chega. Se você comer carne à noite, com massa, por exemplo, pode desistir de dormir. Você não conseguirá.

E se você passou da conta na bebida, tomando além da quantidade que o seu organismo é capaz de processar - e ele cada vez processa menos, e com menor velocidade - e fez isso para esquecer, por um momento, o peso da idade, e tentar curtir um resquício de juventude, o outro dia vai lhe proporcionar um grande arrependimento. Você estará imprestável. O dia passará, e você se sentirá um passarinho tal a sua fragilidade ante à ressaca suportada.

Outro aspecto digno de nota é o seguinte: quando você envelhece, o grau das lentes de seus óculos aumenta. Quem não usava lentes passará a usar também. Ninguém ultrapassa os 45 ou 50 anos sem uma lente no rosto. E ai olhar-se no espelho se torna uma tragédia. Passou o tempo, você perdeu a noção sobre quem você se tornou. Seu rosto traz rugas impressionantes. Há marcas de expressão que parecem entalhadas na madeira. E surgem pelos, sim, pelos no rosto. Você parece a mulher barbada... Alguns precisam ser removidos quase em processo cirúrgico, saem lá de dentro. Como pode?

Nem preciso dizer que a força da gravidade empresta uma contribuição digna de nota. Tudo, absolutamente tudo despenca. Até o pescoço, que você tinha orgulho de mostrar, agora serve para levar um lenço bem enrolado, para esconder as evidências da idade.

É muito difícil aceitar esse ‘processo’ na boa. Isso que eu estou omitindo outros pequenos probleminhas que os leitores poderão apontar - ou pelo menos pensar.

E para coroar a percepção sobre o fato de estar ficando velha a maior evidência se descortinou para mim hoje: o companheiro chega em casa, com ingressos do show do Roberto Carlos, e com 'voucher' de excursão para Porto Alegre – de ônibus (para poder ir e voltar dormindo), num bate e volta daqueles - E EU FIQUEI FELIZ!

Só falta agora, no ônibus, a parceria ir cantando, de mãos dadas, EU TENHO TANTO LHE FALAR... e isso também me deixar contente!

Crônica da Mãe (I)


Casa cheia. Cinco filhos, o marido, a mãe, uma tia. Empregada e enfermeira. Essas eram as pessoas que habitavam a casa que ela gerenciava.

Sem nunca deixar de trabalhar fora – dela eu certamente herdei o gosto pela sala de aula – e muito fazer ‘dentro de casa’, minha mãe foi e continua sendo uma grande mulher.

Embora a vida lhe tivesse reservado muitas circunstâncias para que ela a enxergasse como um ‘fardo’, jamais vi minha mãe reclamar.

Se alguma queixa da minha mãe eu tenho na memória, ela se reduz a algumas lamentações sobre uma dor nas costas, certamente pela direção do veículo pesado demais – uma Rural, sem direção hidráulica, por óbvio – que ela conduzia, diariamente, para atender a todos os afazeres domésticos.

Esposa dedicada, mãe atenciosa. Professora caprichosa. Motorista prudente. Filha paciente e afetiva. Sobrinha amiga. Essa é a visão que eu tenho da minha mãe na época difícil da ‘criação’ dos filhos.

E se aqueles tempos eram bicudos - havia preocupações com a educação e formação dos filhos, com a doença da mãe e outros pequenos problemas do cotidiano, aliados ao seu nervosismo ante a ‘carestia da vida’ - ela não deixou de proporcionar, a mim e aos meus irmãos, uma infância feliz, e uma adolescência ‘mais ou menos’ responsável.

A ternura era marca registrada na nossa casa. E hoje eu sei que a grande responsável por isso fora minha mãe. Ela foi capaz de contribuir, e muito, para que os filhos se tornassem adultos íntegros.

Muitas vezes observei minha mãe debruçada sobre cartazes e matrizes, ‘rodando’ no mimeógrafo os trabalhos dos seus alunos. O cheiro de álcool perfumava o ambiente...Tenho lembrança dos cadernos com suas aulas preparadas, num capricho impressionante.

Em outros momentos, pedalando a máquina de costura, fazendo as roupas que eu 'cismava' usar no final de semana. Foram calças, japonas, saias, vestidos e camisas. Muitas vezes eu vesti, orgulhosa, as costuras da minha mãe.

Eu cosumava acompanhá-la  nas compras da casa. Até na feira da Bento Gonçalves, aos sábados pela manhã, muito cedo, eu me fazia presente. Sacolas de supermercado recheadas dos produtos necessários à manutenção de tantas pessoas que viviam conosco.

E se houvesse um tempo para uma ‘arejada’ empreendendo viagem na companhia dos filhos e do marido, lá estava ela na organização de tudo, sem nunca descuidar da assistência necessária à avó.

E sobrava tempo para muito mais. Organizar pescarias, por exemplo. Não foram poucas as vezes que ela nos levou – filhos e amigos – para ‘desestressar’ na Barra do Laranjal, e na Reserva do Taim, em longas pescarias cujos registros fotográficos não permitem esquecer.

Hoje, lembrando dos feitos da minha mãe, recordei que ela sempre gostou de flores. Um elemento presente em nossa casa. Não guardo na memória vasos vazios. Ao contrário, estavam sempre floridos.

Comprar flores na ‘florista’ – não em floricultura, como hoje se faz – junto da mãe era uma tarefa semanal prazerosa.

Ali na Avenida Fernando Osório, comprávamos a flor cujo significado traduz muito do que a mãe representava em nossa casa: sensibilidade, amor, dedicação, quietude, simplicidade e alegria.

Eram gérberas que nós comprávamos, e elas enfeitavam lindamente os cômodos da grande casa...

Observando minha mãe perdendo, pouco a pouco, a memória e com dificuldades de organizar e reger a sua vida autonomamente, me impulsiono a assisti-la quanto mais eu possa, me fazendo tão presente e tão constante quando ela foi um dia para mim...

É o mínimo que eu posso fazer por minha mãe.


Quando me conheceu, eu não podia dimensionar a força que ela possuía. Somente algum tempo depois comecei a reconhecê-la, e a considerá-la uma fortaleza de mulher.

Guardo na memória – de seu tempo de vida saudável – poucas lembranças. A capina quase diária no pátio – na horta ou no canteiro de flores - sob um sol escaldante que fazia minha mãe a repreender, exigindo que ela se cobrisse, colocando um chapéu sobre a cabeça. Mas ela não atendia as recomendações da mãe. E terminava o ‘serviço’com o rosto ‘avermelhado’, chamando minha atenção infantil.

E embora minha mãe se aborrecesse com esse fato, ela insistia em ‘desobedecer’, numa teimosia birrenta, que eu viria herdar de forma tão indelével.

Quando eu estudava no Grupo Escolar, perto de casa, ela me esperava, ao meio dia, no portão. Chegávamos a casa, eu e a mãe, sob a recepção afetuosa da minha avó.

Num certo dia, ao retornar da Escola – eu estava às vésperas de completar sete anos de idade – recebi a notícia que me faria enxergar minha avó, num futuro duradouro, com outros olhos: ela havia sido acometida por um mal súbito e levada ao hospital. A doença se instalara.

Foram nove meses de hospitalização. E quando minha avó retornou a casa, estava sem poder falar e andar. Com ela veio também uma acompanhante, um anjo que a vida nos fez conhecer. Ela acompanharia minha avó – e a todos nós – até seus últimos momentos, treze anos depois do triste dia daquele mal-estar.

Minha avó, embora adoentada, não tinha abatimento. Parecia mesmo resignada com a condição que a vida lhe impunha.

Da sua cama, ou da cadeira de rodas onde era colocada diariamente, contribuía, e ‘fiscalizava’ o movimento da nossa casa. Muitas vezes apontava para as roupas no varal, se a tarde caía e ninguém aparecia para tirá-las de lá.

Além disso, na medida do possível, participava dos churrascos em família, das comemorações dos aniversários, das festas de final de ano, das reuniões dos amigos dos netos e curtia, de modo peculiar, a visita do filho que vivia em lugar distante.

Do seu quarto – que tinha uma posição privilegiada na casa – ela ‘dava um jeito’ de participar da rotina da família.

A minha fala ela respondia com o olhar, ou com movimentos labiais a murmurar algo, e aos sussurros, uma façanha que a doença não lhe retirara integralmente. Ela tinha, quase sempre, um sorriso nos lábios...e uma serenidade...

 Quando estava em sua cadeira de rodas até ‘farra’ fazíamos pelo pátio. Muitas vezes sentei no seu colo para passear com ela. Outra vezes subia na parte frontal da cadeira de rodas, colocando meus pés no lugar onde ela apoiava os seus, e saíamos a borboletear pela calçada da rua onde morávamos.

Divertíamo-nos juntas, e nessas brincadeiras eu aprendia a admirar-lhe.

Muito embora o sacrifício que a doença da avó infligia a toda a família ninguém na nossa casa se incomodava com as limitações que a doença dela nos trazia. Era um exemplo para nós.

Um dia minha avó silenciou, mas sua força eu guardo comigo, e dela eu retiro a coragem e o ânimo que acende o meu cotidiano. 

Reminiscências



Corda, roda e sapata

Vareta, elástico e bolinha de gude.

Boneca de papel, pandorga e bilboquê

Esconde-esconde e pega-pega.

Carrinho de lomba e botão.

Cinco marias e “trato de paralisa”

Ó meu belo castelo, matotirotirolê, que quereis vós vós, matotirotirolê...

Um dois, três, quatro...quarenta e nove, cinqüenta.

Lá vou eu, quem não se escondeu, morreu!

Umdoistrês eu!
 O último salva todos!

Paralisa!

Fora, até amanhã...

Estranhas reações ante as relações homoafetivas

É estranho o modo como se comportam algumas pessoas diante de histórias de relações homoafetivas. Há os intolerantes, que simplesmente não admitem que duas pessoas do mesmo sexo se curtam, e optem por viver uma grande história de afeto. Mas como nada é absoluto nesse mundo há, por sorte, os indulgentes, que conseguem ‘aceitar’ o fenômeno.

Porém, mesmo dentre estes, observo uma questão interessante: as mulheres tendem acolher as relações homoafetivas, sem demonstrar ojeriza, quando estas ocorrem entre pessoas do sexo masculino. Todavia, se a afinidade ‘rola’ entre mulheres, a repugnância aparece. Com os homens a realidade é diversa: vejo que muitos manifestam certo pavor em aceitar a relação de dois ‘machos’, mas não demonstram o mesmo sentimento se a ‘história’ ocorre entre mulheres.

Ontem, jantando com alguns ‘conhecidos - homens e mulheres – entabulávamos uma conversa que me levou a relatar o caso duas professoras cariocas que viveram em união homoafetiva por 11 anos, tendo uma delas obtido declaração judicial sobre a existência dessa relação, e o conseqüente reconhecimento do direito à herança do ‘casal’.

A partir daí, o diálogo, antes sereno tomou outra direção. Agitação e intranqüilidade entre os interlocutores ganharam espaço, e identifiquei no grupo as duas posturas que acima apontei: as mulheres revelavam-se intolerantes e os homens flexíveis ante a história de afeto das cariocas.

De algumas das mulheres escutei frases absurdas, reveladoras de discriminação dissimulada, e de velado preconceito. Manifestações do tipo: ‘eu não tenho nada contra, mas não quero saber disso perto de mim’; ou, ‘eu não me importo, até me relaciono se for preciso, mas não faço nenhuma questão de tratar com gente assim’; ou, ‘tudo bem, mas fora da minha casa’.

Os homens, contudo, não manifestavam essa repulsa. Mas, provocativa, perguntei o que eles achariam fosse o romance entre dois homens. As reações, creiam, não foram diferentes daquelas das mulheres. Curioso. E incompreensível.

Contra-argumentei, tentando desfazer essa curiosa diferença. Afirmei que a vida é um exercício diário de tolerância. E que independentemente do sexo, as pessoas têm o direito de buscar a felicidade, esteja onde, e com quem essa alegria estiver. Não fui ‘feliz’. Acho que não os sensibilizei.

O extremismo e a intransigência desaparecem do caminho quando a realidade bate à porta. Todos os que dividiam o jantar comigo são filhos, pais e, talvez, avós, um dia. Oxalá sejam eles menos absolutos, se algum dia precisarem conviver com essa realidade que a alguns tanto amofina.

Relações homoafetivas: qual é o problema?

Conheço um casal que conserva uma relação homoafetiva. Ambos tiveram, no passado, relações heterossexuais, mas estão juntos há mais de 15 anos já – tempo superior a das antigas relações hetero que mantiveram. Sendo casal, eles se amam, brigam, discutem a relação. Rola ciúme. Fazem feira. Vão ao supermercado. Convivem com os familiares e amigos. Divertem-se com os sobrinhos. Viajam. Exercem seus afazeres profissionais com zelo. Estudam. Mas ainda chamam atenção em alguns lugares; sofrem discriminações veladas, ou mais escancaradas em determinados ambientes ou segmentos sociais.

Aqui em Pelotas, outro dia, em um restaurante bem freqüentado, eram perceptíveis os olhares de muitas pessoas, lançados sobre um casal ‘homo’ que compartilhava mesa com outro casal ‘hetero’.

Duas senhoras e seus respectivos maridos não tiravam os olhos deles. Estavam mais interessados na diversão e no papo da mesa ao lado do que no seu próprio lazer ou jantar. Uma das senhoras não resistiu e disse à outra:

"Admiro-me de quem ainda sai para jantar com uns tipos assim".

Os ‘tipos assim’ a que ela se referia eram os dois homens, na verdade um casal. Entre eles, afora algumas delicadezas comuns, como servir a bebida, ou lançar mútuos olhares afetuosos, havia comportamento absolutamente formal. Nenhuma 'afetação' capaz de explicar, sob algum remoto pretexto, aquela insurgente observação da senhora pelotina.

Outro dia, passando pela calçada da Rua Dom Pedro II, olhei para os jardins do pátio interno do Prédio da Reitoria da UCPel e vi, sentados num banco, dois jovens do sexo masculino, namorando entre as árvores. Selavam o encontro ou a despedida com impudico beijo ardente. O beijo não passou despercebido. De uma janela do prédio da Reitoria, dois outros rapazes comentavam, entre risos, a cena.

Meu pai conta ter presenciado, mais de uma vez, em tradicional clube social pelotense, a diretoria ‘dar bola preta’ a cidadão que buscasse associar-se, apresentando como dependente alguém sobre quem recaíssem dúvidas acerca de seus verdadeiros vínculos com o pretenso associado.

Muitas vezes o dependente – na verdade companheiro – vinha disfarçado de sobrinho ou ‘filho de criação’. E a dúvida bastava para negar a associação e justificar ‘a bola preta’ - a não aceitação do candidato a sócio. Será que ainda é assim?

Nas escolas, entre os adolescentes, relatos de ‘bullying’ discriminatório também estão presentes. Sei de duas meninas alvo do ódio coletivo dos colegas por causa do seu 'escancarado romance'. Sei também do quanto isso tem trazido sofrimento e desgosto aos envolvidos. A realidade não é diferente nas universidades. Mesmo nesses ambientes ainda se observa muito de discriminação.

Dificuldades para obter emprego e até aprovação em concurso público já foram relatadas por quem se vê em 'situação homossexual'.

Embora haja proteção jurídica dispensada às relações homoafetivas, sob a justificativa da necessidade de serem observados os princípios constitucionais vigentes, como o respeito à dignidade das pessoas, à liberdade e à igualdade, parece estar ocorrendo certo recrudescimento das reações discriminatórias contra os 'homoafetivos'. Ainda temos incompreensíveis resistências sociais ao reconhecimento desta realidade. É de perguntar-se: até quando?

Sobre a castidade

É intrigante a opção que algumas pessoas fazem - de forma voluntária ou imposta - por se manterem castas ou celibatárias, termo popularmente utilizado para descrever aquele que escolhe abster-se de atividades sexuais. É que sexo também precisa ser prioridade na vida da gente. Faz bem à saúde; alivia as tensões; melhora o humor; estimula a atividade mental; proporciona aumento da auto-estima, além de ser excelente exercício aeróbico.

Por isso, abrir mão de exercitá-lo, ainda que esporadicamente, chama atenção. Conheço algumas pessoas que vivem assim, castas. E fizeram esta ‘escolha’ por diversas razões: crenças e imposições religiosas; solidão; problemas de saúde; blindagem emocional; falta de desejo sexual ou porque priorizam outras atividades e vão ficando sem tempo para o sexo.

Em todas elas eu observo um traço comum: vivem emocionalmente mais confusas; parecem menos felizes e, por isso, levam a vida num desequilíbrio exprimido por variadas formas.

Tenho uma amiga, com quem convivo de forma esporádica. Mulher jovem – não guriazinha, é verdade – que vive em retraimento. Embora tenha um círculo de amizades considerável, não se habituou às experiências sexuais. Em um determinado momento – sabe-se lá por que – optou por viver em castidade. Pareceu-me tão envelhecida, ressentida, amargurada, desleixada com a aparência física; no papo, mostrou-se queixosa.

Hoje outro fato me chamou atenção. Observei no centro da cidade a atitude de um padre conhecido, que circulava de carro ‘cuidando’ um jovem que ali transitava. A perturbação daquele sujeito em sua atitude era visível. Ele certamente estranhava e até sofria ao perceber o desejo se impondo, consumindo-lhe e o obrigando àquela atitude tão ‘imprópria’ para sua condição de pastor. Uma evidência doentia das conseqüências de um celibato imposto e, porque não, injustificável.

Um querido amigo, septuagenário, me confidenciou não ser a velhice motivo para a ‘opção’ pela castidade. Mesmo que o sexo ainda seja tabu e preconceito para alguns casais da terceira idade, os que já descobriram formas alternativas de viver e experimentar a sexualidade percebem os benefícios. E neles é visível o gosto pela vida. Uma diferença significativa em relação àqueles que aceitaram, resignados, a ideia de que a idade retirou-lhes essa possibilidade.

Se deixar de fazer sexo pode fazer mal à saúde – por ser atividade fundamental para o bem-estar humano, porque algumas pessoas insistem em renunciá-lo, num autoflagelo inexplicável?

Léo, o cadeirante

Aos 23 anos, o estudante Léo tenta levar a vida numa boa, mas há dias em que desanima. Ontem, por exemplo, passou por dificuldades: sentiu na pele que a cidade (prefeitura) não se preocupa com ele. O problema surgiu quando, em via pública, enfrentando já calçadas irregulares e esburacadas, precisou atravessar a rua, na esquina das ruas Félix da Cunha e Sete de Setembro. Ali há uma rampa de acesso, mas 

Léo não conseguiu usá-la, por causa de mais buracos neste ponto. A cadeira de rodas poderia virar com ele junto.

Para sorte, alguém o ajudou – mas ele, mesmo agradecido, se aborreceu com isso, porque gostaria de ter autonomia e cruzar a esquina de forma independente.

Léo vai me fazendo o relato. Disse-me que com frequência é obrigado a andar no 'meio da rua'. Quando isso acontece, sempre aparece alguém para chamar-lhe atenção sobre os perigos do seu comportamento. Ele sabe que é arriscado. "Mas as calçadas em Pelotas - diz - não foram feitas para os cadeirantes". Sorri, e completa: "Acho que tampouco para os que não são".

"Eu tenho uma colega de aula deficiente visual. Nós nos conhecemos no início desse ano. Lembro bem. Ela pediu para me conhecer melhor. Eu achei legal passar por essa experiência: ela me olhou "com as mãos". Tocou-me demoradamente no rosto, cabelos. E foi descendo pelo meu pescoço. Demorou nos meus ombros, braços e mãos. Depois, mesmo sem jeito, pediu para ‘olhar’ minhas pernas. Descobriu – de forma mais intensa – minha paraplegia. Tornamo-nos amigos desde então. Por sinal, caminhando por uma rua de Pelotas, com auxílio da bengala, ela tropeçou num ladrilho solto, caiu e teve um braço fraturado. Fazer o que...", disse Léo.

Ouvi os relatos do jovem em silêncio, e decidi sair às ruas para os registros. Ele tem razão. As condições de mobilidade e acessibilidade em Pelotas são realmente precárias para quem precisa de condições especiais, como rampas etc. De modo geral falta quase tudo em termos de acessibilidade, pelo menos nas vias e no transporte público. Essa precariedade impede que as pessoas transitem de forma digna, tira-lhes a liberdade.

Embora tenham assegurado por lei o direito de utilizarem com segurança e autonomia os espaços - mobiliários e equipamento urbanos, edificações e transporte - muito ainda é sonegado aos cidadãos, sobretudo às pessoas portadoras de deficiências ou com mobilidade reduzida.

Uma cidade que o governo quer fazer crer que é modelo; dirigida por prefeito que se considera "empreendedor", não pode permitir que seus administradores virem às costas para a realidade dos cadeirantes e de outras pessoas com necessidades especiais. Não importa o tamanho da cidade, nem mesmo suas condições financeiras, porque isso depende, mesmo, dos seus administradores, de boa vontade e da definição de prioridades. Pelotas devia ser diferente para o ’Léo’. 

Qual o tema da sua vida hoje?

Há um fato curioso, verdadeiro hábito entre pessoas que se propõe a comemorar uma data, aniversário, formatura ou casamento: eleger um tema, um ‘motivo’ para a festa.

Desde a comemoração do primeiro ano da criança, os pais se veem envolvidos nessa árdua tarefa: backyardigans ou homem aranha; princesas ou hello kitty?

A simples escolha do tema da festa pode gerar ‘arranca-rabos’ dignos de nota entre os pais do aniversariante. Ao pequeno isso é o que menos importa. Para ele algumas dúzias de coloridos balões seriam mais do que suficientes.

Quando crescem um pouquinho mais, eles próprios – influenciados por pais, mães, avós ou tias - passam a viver a experiência da escolha do tema de sua festa: farão isso inúmeras vezes. A cada ano, um novo desafio inovador.

Se a festa é de 15 anos, não bastará à alegria dos pais – e à felicidade da menina-moça – comemorar entre amigos. É necessário festão: tema, convites hiper transados, apresentação de bandas, performances da própria aniversariante ou de familiares, homenagens, homens performáticos no meio do salão, ah... quase esqueço, um ‘parabéns a você’ para que ninguém duvide estar numa festa de aniversário.

Inclusive há certa competição entre as aniversariantes: cada aniversário precisa superar o que antecedeu em inovações. Quem será a vencedora?

O mercado percebeu essa tendência e oferece os mais variados serviços. Há evidente crescimento no ramo da prestação de serviços de decoração, inclusive temáticas. São profissionais que levam o seu ofício muito a sério, porque sabem que existe um cliente exigente, disposto a pagar pequenas fortunas por ele.

Soube outro dia de uma festa temática cujo decorador arrecadou todas as estátuas de gatos disponíveis no mercado para abrilhantar o festerê. Havia gato por todo o lugar.

Em outra, o objeto mais procurado eram as estátuas de ‘Buda’. Em toda a região sul, elas foram buscadas em lojas especializadas e antiquários. Festas orientais, indianas, havianas, anos 20/30 ou 50, discoteca, beatlemania, tributo à Madonna ou a Lady Gaga, vale tudo porque a imaginação e a criatividade não têm limites.

As formaturas não ficam atrás. Há pouco tempo elas eram comemoradas entre familiares e, depois, no baile, junto aos demais colegas e amigos. Hoje não. As festas de formatura se tornaram mega-eventos. Elas me passam a ideia de que a fluidez da vida está a justificar que a tudo se ‘aproveite ‘ e ‘comemore’ assim, de modo intenso, chegando mesmo, algumas vezes, ao exagero.

Observo os casamentos. Agora a nova moda é que na festa – não uma festinha - os noivos dancem uma coreografia. Seria algo como a dança dos noivos ou "do acasalamento". É divertido. Já tive a sorte de ir a uma festa dessas e os noivos deram show. Porém, também já me senti "vítima" da dança dos nubentes, pois o noivo não sabia dar um passo sequer e a noiva tentava de todo o modo parecer estar sendo conduzida pelo amado. Mas não. Ela era quem conduzia o infeliz, e mal! Os convidados não seguraram o riso e os noivos terminaram a encenação antes do ‘gran finale’!

O foco das comemorações parece ter se perdido no meio de tanta chuva de prata, glitter, fogos de artifício, purpurinas, flores, budas etc.

Li certa vez – nem sei bem onde – que o ‘motivo’ de um aniversário é ter nascido naquele dia; assim como o ‘tema’ de um casamento é ter escolhido unir-se ‘forever’ naquela data. Isso seria suficiente razão para comemorar, sem precisar qualquer tema adicional.

Qualquer dia desses vai ter gente querendo viver sua vida, no dia a dia, sob um tema diferente: Pica-pau, Dick Vigarista, Penélope Charmosa, Ursinho Pooh ou Meninas Superpoderosas. Sendo assim, qual seria o tema da sua vida hoje?

Que tipo de homem lhe basta?


Que tipo de homem-companheiro você quer ou tem a seu lado? Um sujeito que contribui nos afazeres domésticos ou que nada ou pouco faz?

Pois no diálogo entre duas amigas - num grupo de oito parceiras reunidas para jogar conversa fora – houve surpresa, porque o marido da outra fazia o supermercado semanalmente.

Para completar ainda se ouviu: faz mais de 10 anos que eu não coloco meus pés no mercado, salvo para compras muito pessoais.

Ainda sobre o supermercado, uma delas foi enfática: eu prefiro fazer as compras da casa; se meu companheiro decide ir, já sei que no lugar do sabão em pó vem ‘em pedra’; ao invés do limpador multiuso, ele traz o detergente; e, se eu pedir uma marca de absorvente, é outra que vem. Portanto, supermercado é comigo.

A partir daí o papo rolou em todas as direções. Quem arruma a cama do casal? Meu marido jamais ‘estendeu a cama’. E o ideal é atribuir essa tarefa aos homens, especialmente os que tiveram a experiência do serviço militar. E com direito a jogar moeda nos lençóis. Risadas.

E em relação aos filhos, como fica? Os pais contemporâneos participam mais freqüentemente das tarefas que, até bem pouco, eram afeitas às mulheres-mães? Trocar a fralda – de xixi frise-se – e dar mamadeira já não surpreende quando realizadas por eles; são bem companheiros, às vezes.

Cozinha é lugar de homem. Muitos se descobriram ‘gourmets’, para a sorte das mulheres que não fritam sequer ovo. Porém, na churrasqueira, há muitas que a pilotam mais repetidamente do que seus homens.

As ‘Amélias’ existem. Há as que tiram os sapatos – talvez as que os atiram, mas estas silenciam - e massageiam os pés dos parceiros; organizam o banho e escolhem a roupa deles. A cueca também? Preparam o prato de comida, decidindo o que e quanto comer. Isso é hábito ou obrigação? Uma vez lá que outra, como um comportamento de 'conquista', preparando uma noite de amor, tudo bem... Mas todo o dia, deve ser cansativo. Bem, mas se a companheira fizer por deleite, a gente aceita.

Levar e buscar filhos na escola ou na festa do final de semana; juntar o cocô do cachorro do pátio; limpar a gaiola do passarinho; dar comida para o hamster; fechar a casa quando anoitece; aguar as plantas do jardim; consertar o abajur cujo fio escapou; trocar as lâmpadas queimadas; azeitar a fechadura da porta; retirar a roupa da corda; recolher a suja do banheiro e consertar a descarga da privada que rompeu... É preciso um companheiro para tudo isso!

São tantas as atividades da rotina da casa que o bom mesmo - se você não tiver um terceiro para fazer isso - é estabelecer uma divisão calculada, disciplinada e superdosada entre o casal. De preferência que um saiba bem o que lhe toca, e não precise apontar nada ao outro, porque isso também desgasta. Afinal, companheiro é aquele que participa da vida ou da ocupação de outro.

Esse é o homem que toda a mulher quer ter ao seu lado, sem abrir mão de outros atributos, como ser um ótimo amante, por exemplo. Quem já encontrou o seu, que segure. Quem ainda não tem, seja otimista, você ainda pode encontrar. E não esqueça: esse texto é escrito por uma mulher. Se fosse por um homem, seria diferente?

Obrigação ou cordialidade?


Andar de ônibus em Pelotas é atividade sempre 'reflexiva'. Hoje pela manhã não foi diferente. Um passeio no transporte público pelotense permitiu-me assistir a uma cena peculiar: ‘bate-boca’ entre uma jovem e uma idosa - a respeito dos assentos destinados aos sexagenários.

Desde que as catracas eletrônicas foram adotadas, as poltronas destinadas aos idosos ficaram postadas na parte da frente dos carros, em número reduzido. Ou seja, nem todos os assentos ali dispostos são destinados especialmente a eles. Os que ‘pertencem’ aos idosos possuem uma marca indicativa (ou deveriam possuir).

Pois bem, a senhora ingressou no coletivo e manifestou desejo de acomodar-se, mas estavam todos os assentos preenchidos. Um deles, pela jovem que curtia som, com fones de ouvido.

A idosa não se conteve e a cutucou, dizendo: "A jovenzinha sabe que essas poltronas da frente são dos velhos (sic)?"

A menina respondeu: "Sim, algumas são, mas esta aqui não é".

Pronto. Foi o suficiente para a idosa enfurecer-se, e dar início à lavação de roupa suja, rebatendo: "Eu tenho direito por lei"

A menina, aborrecida disse: "Eu pago e não vou levantar pra ti, e obteve como réplica da senhora: "Se tu pagas, vai e fica lá atrás".

A jovem, irada, respondeu: "Vou quando eu quiser; os teus bancos são os marcados de amarelo..."

Sentada no fundo do ônibus, presenciando o ‘quiprocó’, passei a considerar os argumentos de ambas, da jovem e da senhora. É que os jovens pagam a passagem, ingressam no ônibus e, a rigor, tem direito de sentarem-se, quando há assentos disponíveis.

Os idosos têm, por lei, a garantia de alguns bancos para o conforto de viajarem sentados, como é desejável e recomendável a todos, mas mais especialmente a quem apresenta limitações físicas próprias da idade.

Quem estava ao meu lado cochichava que todo o dia tem um ‘barraco’ deste tipo no ônibus, especialmente quando há jovens sentados na parte da frente. Disse-me o senhor: "É que os idosos pensam que todos os bancos são para eles".

A Lei municipal 3661 de abril de 1993 dispõe sobre a utilização dos assentos dianteiros dos veículos de transporte coletivo, urbano e rural, em Pelotas, exigindo que letreiros os identifiquem como ‘assentos destinados a deficientes, idosos e grávidas’.

Além disso, no Estatuto do Idoso também está prevista a reserva de 10% dos assentos dos coletivos para os idosos, devidamente identificados com a placa de ‘reservado preferencialmente para idosos’. Essa identificação pode estar no próprio banco do ônibus, ou através de adesivos colados no vidro, em cima dos assentos reservados.

Fui checar essa marcação dos assentos nos coletivos em Pelotas, e ela é deficiente. Ou seja, os idosos muitas vezes não identificam quais os bancos que lhes estão reservados, porque não há essa identidade. Outros, em face da omissão, imaginam sejam todos os da parte da frente do ônibus, postados antes da catraca.

Seria recomendável que as empresas agrupassem os bancos prioritários, marcando-os de modo muito visível, o que poderia evitar esses desgastantes bate-bocas, facilitando a visualização por parte dos sexagenários. Além disso, boa dose de educação – tanto para os jovens quanto para os idosos – também poderiam facilitar as coisas. Afinal, diálogo civilizado independe de legislação.

Deixei o coletivo pensando: afinal, ceder o lugar para os idosos deve ser obrigação legal ou simples demonstração de cordialidade?

Automóveis e status


Já faz muito tempo que eu tenho essa percepção: para alguns desditosos, carros são sinônimos de status. Aos olhos de muitos o veículo significa prestígio. Ele pode 'mostrar a posição' que alguém ocupa na sociedade. É risível, caricato, mas evidência. Para muitas pessoas, ter um carro bonito, de preferência do ano, é o sonho de consumo que os financiamentos em longo prazo permitem realizar. Alguns até arriscam adquirir sem ter bem certeza de poder pagar. Mas, nesse caso, vale a pena aventurar-se nem que seja para dirigir um ‘formoso’ por alguns meses. E parecer... aparecer... Aqui em Pelotas há vários exemplos deste tipo de pessoa.

O carro deve ser de cor sóbria, preto de preferência. Essa é a cor que encanta. É a cor do luxo. Contrasta com o metálico – dourado ou prateado – que compõe o visual de muitos veículos que circulam por ai. Os prateados também estão na conta. O sujeito entra no veículo é ascende socialmente. Pelo menos acha.

Os donos se sentem elegantes e distintos dentro desses automóveis. Creem diferenciarem-se, passando uma ideia de riqueza, prosperidade que, de verdade, não existe. Vivem, portanto, a fantasia que o carro do ano lhes proporciona.

Conheço uma criatura que optou abrir mão de viver um grande amor para manter uma relação com um ‘ricaço’ – a quem ela dedica ‘carinhosamente’ o adjetivo de ‘nojento’. Segundo me confessou, ela "prefere chorar dentro de uma Hilux a ter de dirigir um Fiat Uno qualquer". Aparecer está na ordem do dia dessa fulana. Mas um fato ainda me impressiona mais do que a vaidade ou a arrogância destes a quem me refiro: ver que há entre eles os que optam por dirigirem possantes veículos – e caros, muito caros – ao invés de, por exemplo, matricularem seus filhos em boas escolas.

Há, também, aqueles que residem em moradias que sequer têm garagem para guardar o carro, mas não abrem mão de tê-lo estacionado na rua mesmo, ou numa garagem qualquer. O carro, não raro, vale mais que a própria casa.

Tenho cá meus delírios automobilísticos. Há muito carro bonito no mercado. Eles realmente fascinam, mas é preciso manter a racionalidade para compreender que carro não constitui ninguém. Não faz qualquer pessoa. Não torna alguém coisa alguma.

Observando onde mora a pessoa que "prefere chorar dentro da Hilux", compreendi um pouco da lógica que permeia os que pensam ganhar status ao dirigirem um bom carro: a casa de moradia não sai com a gente para a rua. Já o carro...

Mania de mostrar aquilo que não se é.
Triste piração.
Sorumbática demência.

No comércio, me chamam de ‘flor, querida e mimosa’


Há um comportamento entre os comerciários que tende a se potencializar nas vésperas do Natal. Para atender a demanda que aumenta, o comércio contrata vários funcionários temporários. Alguns querem agradar o comprador a todo custo. Quem sabe assim conseguem manter o emprego por mais algum tempo, e não somente durante o período de lojas cheias? Por isso, alguns pensam valer usar algumas expressões de efeito duvidoso.

Você entra na loja, vem a atendente e, de forma amistosa, pergunta se pode auxiliar... Dependendo do momento, a presença dela é até inconveniente, mas vá lá. Ela está ali para ajudar. Você, então, solicita o produto, ou pergunta sobre se existe determinada mercadoria. E a resposta vem assim: ‘Minha flor’, dessa cor não tem mais; ou, ‘mimosa’, vou te trazer todas as cores e os tamanhos que eu tenho.

Quem é um pouco arredio a esses surtos de adjetivação fica se sentindo desconfortável. Ok, a comerciária está sendo gentil. Mas será que precisa comportar-se assim?

Se o funcionário é homem, o constrangimento é ainda maior. Dá vontade dizer: olha, suspende os adjetivos, apenas me responde ao que for perguntado. Já me aconteceu, certa vez, de fazer o pedido e o rapaz responder: " 'Minha querida, vou buscar o que tenho para te mostrar. Posso trazer de todas as cores?' Eu fico pensando: alguém me inclui e eu nem sabia. Sou dele, é? E ainda, querida? Como assiiiimm?"

Aqui em Pelotas há um estabelecimento comercial cujo proprietário tem esse hábito - chamar suas clientes de ‘querida’, ‘mimosa’, ‘lindinha’ ou ‘minha flor’. É tão aborrecido... Outro dia – para fazer um teste – convidei meu marido para estar comigo nesse estabelecimento. Eu queria confirmar se, mesmo na presença de uma companhia masculina, as palavras seriam ditas do mesmo modo. Escolhi um produto para buscar e ingressei no bazar. Antes mesmo que eu pudesse perguntar, ele lascou: ‘Minha querida’ no que eu posso te ajudar? Fiz o pedido e ele contestou: ‘Ah, mimosa, não tem mais. Mas vou receber..."

Saímos entre risos, teste feito, confirmação de que o tratamento dispensado às freguesas é um hábito por ali, estejam elas sozinhas ou acompanhadas.

Não sou especialista em recursos humanos, e nem ‘expert’ em posturas e atitudes para atuação no comércio, mas percebo que ser tratada por ‘mimosa’, ‘querida’ ou qualquer outra qualidade dessas não há de ser uma recomendação nos manuais de treinamento e capacitação para atendimento ao público.

O bom acolhimento prolonga a vida da empresa. Isso todos sabemos. Ter um grupo de funcionários gentis e prestativos é o ideal. Ser um comerciante zeloso, delicado e atencioso também é. Mas alguns exageros verbais não devem ser usados. Eles em vez de agregar clientes podem ter um efeito perverso e contrário, afastando os fregueses.

O que você acha?