Era uma mulher alta, magra. Esguia. Tinha os olhos de um azul profundo. Mas eram tristes seus olhos. Hoje eu bem sei que eram olhos tristes. E havia lá suas razões para tê-los. Mas isso não importa agora.
Sua casa era de uma simplicidade ímpar. Limpa e bem cuidada. Era muito acolhedora aquela casa. Para lá costumávamos nos dirigir aos finais de semana – pai, mãe e filhos.
Nos primeiros tempos de DKV. A estrada de chão batido nos conduzia para “fora”. Depois de uma sucessão de perguntas: chegamos? Chegamos? Chegamos?
Acabávamos, enfim, por chegar. Estacionado o carro à porta da casa minha avó ela nos recebia feliz. Logo viria o avô. Sorriso largo, bonachão. Tudo naquele lar me intrigava. Era mesmo uma casa “de fora”. As cadeiras de balanço logo na entrada, onde meu avô cochilava depois do almoço; a sala de jantar que trazia a mesa grande de madeira rústica, acompanhada por cadeiras de assento e encosto de palha.
Havia certo contraste deste mobiliário com uma pequena, mas muito bonita, cristaleira. Nela as louças variadas dividiam espaço com copinhos de vidro de tamanhos diversos, coloridos, dispostos organizadamente nas suas prateleiras. Muitas vezes vi meu avô beber, neles, o seu aperitivo diário.
Outras estranhezas, aos olhos de uma menina, estavam presentes por lá. Quadros de fotos antigas, por exemplo. E um lava mãos. Algo esquisito aos meus olhos infantis. Bacia de louça ágata apoiada num pé alto de ferro, à saída da porta para o pátio. Ali lavávamos as mãos antes do almoço, com a água que meu avô tirava do poço. Água de poço. Era um espetáculo jogar o balde, preso por grossa corda, para dentro do poço e ver, depois, a água abundante, transbordar, no pesado balde que puxávamos.
Esse ritual se repetia, por muitas vezes, depois do almoço. Muita água para lavar a louça que a família sujava ao consumir a comida que a avó fazia, auxiliada por sua empregada.
Ela se chamava Rosa. Negra, muito preta, hoje penso que a avó dava-lhe ordens para que ficasse à nossa disposição – minha e dos irmãos - para satisfazer todos os nossos desejos. Era da família a querida Rosa. O prato domingueiro era carne de ovelha, assada no forno do fogão à lenha. Que sabor havia naquela comida.
Lembro-me, também, das sobremesas: ambrosia e rapaduras de leite – divinas rapaduras. Sou capaz de sentir o seu aroma. O cheiro que se espalhava quando a lata onde ficavam armazenadas se abria.
Recordo-me do barzinho onde meu avô comprava guloseimas; da estrada de ferro; dos banhos de rio.
Lembro-me, agora, particularmente, da hora em que íamos embora. Era sempre o mesmo ritual. A avó corria para dentro da casa e voltava trazendo “nacos” de carne de ovelha que saboreávamos no retorno à casa em Pelotas.
Memórias de uma infância feliz, vivida pelas bandas do Rio Piratini.
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