Casa cheia. Cinco filhos, o marido, a mãe, uma tia. Empregada e enfermeira. Essas eram as pessoas que habitavam a casa que ela gerenciava.
Sem nunca deixar de trabalhar fora – dela eu certamente herdei o gosto pela sala de aula – e muito fazer ‘dentro de casa’, minha mãe foi e continua sendo uma grande mulher.
Embora a vida lhe tivesse reservado muitas circunstâncias para que ela a enxergasse como um ‘fardo’, jamais vi minha mãe reclamar.
Se alguma queixa da minha mãe eu tenho na memória, ela se reduz a algumas lamentações sobre uma dor nas costas, certamente pela direção do veículo pesado demais – uma Rural, sem direção hidráulica, por óbvio – que ela conduzia, diariamente, para atender a todos os afazeres domésticos.
Esposa dedicada, mãe atenciosa. Professora caprichosa. Motorista prudente. Filha paciente e afetiva. Sobrinha amiga. Essa é a visão que eu tenho da minha mãe na época difícil da ‘criação’ dos filhos.
E se aqueles tempos eram bicudos - havia preocupações com a educação e formação dos filhos, com a doença da mãe e outros pequenos problemas do cotidiano, aliados ao seu nervosismo ante a ‘carestia da vida’ - ela não deixou de proporcionar, a mim e aos meus irmãos, uma infância feliz, e uma adolescência ‘mais ou menos’ responsável.
A ternura era marca registrada na nossa casa. E hoje eu sei que a grande responsável por isso fora minha mãe. Ela foi capaz de contribuir, e muito, para que os filhos se tornassem adultos íntegros.
Muitas vezes observei minha mãe debruçada sobre cartazes e matrizes, ‘rodando’ no mimeógrafo os trabalhos dos seus alunos. O cheiro de álcool perfumava o ambiente...Tenho lembrança dos cadernos com suas aulas preparadas, num capricho impressionante.
Em outros momentos, pedalando a máquina de costura, fazendo as roupas que eu 'cismava' usar no final de semana. Foram calças, japonas, saias, vestidos e camisas. Muitas vezes eu vesti, orgulhosa, as costuras da minha mãe.
Eu cosumava acompanhá-la nas compras da casa. Até na feira da Bento Gonçalves, aos sábados pela manhã, muito cedo, eu me fazia presente. Sacolas de supermercado recheadas dos produtos necessários à manutenção de tantas pessoas que viviam conosco.
E se houvesse um tempo para uma ‘arejada’ empreendendo viagem na companhia dos filhos e do marido, lá estava ela na organização de tudo, sem nunca descuidar da assistência necessária à avó.
E sobrava tempo para muito mais. Organizar pescarias, por exemplo. Não foram poucas as vezes que ela nos levou – filhos e amigos – para ‘desestressar’ na Barra do Laranjal, e na Reserva do Taim, em longas pescarias cujos registros fotográficos não permitem esquecer.
Hoje, lembrando dos feitos da minha mãe, recordei que ela sempre gostou de flores. Um elemento presente em nossa casa. Não guardo na memória vasos vazios. Ao contrário, estavam sempre floridos.
Comprar flores na ‘florista’ – não em floricultura, como hoje se faz – junto da mãe era uma tarefa semanal prazerosa.
Ali na Avenida Fernando Osório, comprávamos a flor cujo significado traduz muito do que a mãe representava em nossa casa: sensibilidade, amor, dedicação, quietude, simplicidade e alegria.
Eram gérberas que nós comprávamos, e elas enfeitavam lindamente os cômodos da grande casa...
Observando minha mãe perdendo, pouco a pouco, a memória e com dificuldades de organizar e reger a sua vida autonomamente, me impulsiono a assisti-la quanto mais eu possa, me fazendo tão presente e tão constante quando ela foi um dia para mim...
É o mínimo que eu posso fazer por minha mãe.
Esta história me toca. E muito. Mal alcançara a maior idade e já me separava do convivio do meu par de irmãos. De ambos estive distante por décadas, realidade mitigada por encontros esporádicos e muito curtos. Cedo, subitamente, ele me deixou sem que pudéssemos dizer adeus um ao outro. Ela continua sendo razão de grande parte das minhas alegrias, enriquecidas pela lembrança de que nunca tivemos rixas, mas, sim, entendimento e companheirismo. Hoje, as circunstâncias são outras, podemos nos ver com mais freqüência. Estamos mais perto. Mas as saudades não diminuem. Nosso horizonte é próximo e enquanto houver caminho à nossa frente vamos tentar estar juntos no tanto que nos for possível, com encontros mutuamente gratificantes. Soma-se a isto o prazer de contemplar, com admiração e carinho, os quadros por ela pintados e que enfeitam as paredes de minha casa. Tenho fotos de todos os outros que enriquecem o ambiente onde ela vive. Que o tempo permita que minha irmã continue pintando suas flores e fazendo seus tricôs, também cheios de arte e de beleza. E que não me esqueça, porque sempre hei de lembrá-la.
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