Camila é linda. Rosto graúdo, olhar expressivo. Tem a agitação própria da idade. Mesmo que a lei diga que não, é uma criança. Está com 12 anos e freqüenta a 7ª série do ensino fundamental em escola pública de Pelotas.
Nosso encontro foi casual. Sentamo-nos lado a lado no banco do ônibus da linha Cohabpel. Ela me disse que estava chateada hoje, pois nos últimos tempos vem sofrendo com o deboche de seus colegas de turma.
Pergunto o que vem ocorrendo.
"Eu sei que tu sabes, né tia... Olha pra mim, eu não sou normal para uma guria. Passam o tempo todo cantando gorda baleia saco de areia e isso enche meu saco. Hoje mesmo me deixaram de lado na brincadeira porque eu sou gorda.
Camila conta que vem tratando da obesidade. Inclusive participou de uma pesquisa: "Essas de universidade", ela diz. "Eles (os médicos) disseram que aqui em Pelotas tem muita criança assim, gorda, com muito peso. Eu espalhei no colégio que sou doente, pra ver se paravam de me implicar; mas parece que piorou. Agora mesmo que eles me isolam. Eu tenho uma única amiga, dessas amigonas; ela me entende..."
Pergunto à Camila se ela não se queixa para a mãe ou à professora, porque sempre tem uma mais amiga, que poderia ajudar. O que ouço de volta chega doer: "Já falei no colégio, mas parece que a professora pensa a mesma coisa que meus colegas"...
"Ela (a professora) me disse: Mas tu és gorda mesmo... É assim, quem não debocha de mim, assiste, e fica quieto, que é o mesmo que debochar, pra mim..."
Sobre a mãe, a menina fala assim: "Ela me ajuda, fala que aqui na cidade há muita obesidade entre as crianças, e que tenho que me preocupar com isso por causa da saúde. Ela diz: Camila, tu não vais deixar de casar por isso"...
A garota prossegue:
"Minha mãe não me convence, porque, se todo mundo debocha, eu não vou arranjar namorado mesmo... eu nunca fiquei, e, na minha sala, as gurias que são magrinhas, todas já ficaram... Meu pai acha graça, e sempre me fala de uma tal namorada que ele teve e que era bem gordinha, antes de casar com a minha mãe. Eu percebo que o pai não dá bola para minha gordura, ele me ama de qualquer jeito".
Quem está ao nosso lado, no ônibus, ri da franqueza da Camila. Mas há sofrimento e dor naquela fala.
Sei que não há muito a dizer que possa consolá-la. Mas sinto que preciso dizer algo. Está quase na hora de eu descer do ônibus.
Olhei bem para ela e disse: "Camila, vive intensamente. Sofre, mas não demais, viu! E te junta com quem te apóia, com a tua família, e tua amigona de que falaste. Seja feliz, guria. Se fizeres isso, sem descuidar da saúde, vais encontrar ‘o marido’ que tua mãe te fala e, antes, alguns ficantes". Ela solta uma gargalhada.
Outro dia, alguém mencionou que esse tipo de brincadeira entre as crianças sempre existiu e agora ‘virou moda’ e se transformou em bullying.
Modismo ou não, machuca. Fere e destrói. Não só a Camila, qualquer um de nós.
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