quinta-feira, novembro 10, 2011

Crônica da Mãe (II)

Era um canteiro retangular e estava localizado no pátio da nossa casa, em meio às árvores de frutas, e da horta de verduras. A sombra do ‘salso chorão’ dava um ‘toque’ especial às flores.

‘Pacaretes’ – assim eram chamadas por ela aquelas flores – que mais tarde eu identificaria como ‘margaridas’. Tratadas com muito carinho, eram verdadeiramente cuidadas. O canteiro estava sempre bem aprumado. Nenhuma erva daninha tinha espaço ali. Com freqüência a terra era revolta e regada,  sempre preparada para o florescer dos ‘pacaretes’.

Certo dia, por uma razão que não lembro qual – mas certamente porque eu tivera alguma pretensão resistida, uma vontade não atendida – dirigi-me ao canteiro, cujas flores brancas de miolo amarelo eram abundantes, e fui arrancando, uma a uma, cada ‘corola’ – aquela parte formada pelo conjunto de pétalas, o pedaço mais vistoso da flor. Lembro, inclusive, a técnica utilizada. Colocando a ‘corola’ entre os dedos indicador e médio, com a palma da mão virada para cima, um movimento de baixo para o alto, e a florzinha estava ‘arrancada’ do seu suporte.

Não sei quantas ‘flores’ arranquei, mas o canteiro foi transformado numa enorme porção de hastes verdes com folhas, só folhas. Flores íntegras restaram  poucas. Abundavam as caídas ao solo. Ali a prova de toda a minha maldade.

Não demorou muito para que minha mãe percebesse o ocorrido e, então, eu ouvi sua voz pronunciando meu nome por completo - façanha que sempre traduz problemas, para quem tem nome composto como eu.

Quando me apresentei a ela, ouvi apenas a pergunta: Tu que fizeste isso? Por quê? Sem dar-lhe a resposta que ela merecia – me mantive em silêncio, certamente com a expressão de toda a minha perversidade estampada no rosto- e entāo percebi meu erro.
Ante a situação, minha mãe não tardou  fazer aquilo que lhe pareceu adequado – e que eu aprovaria, durante toda a minha vida: deu-me umas duas ou três palmadas.

Não lembro de ter derrubado uma lágrima sequer, até porque as palmadas não doeram nada, e foram bem merecidas.

Mas recordo ter visto minha mãe secar as suas.

As lágrimas da minha mãe foram muito doloridas. Ela atingiram-me de um modo tão intenso que o castigo que pretendi impor a ela, pela falta da sua atenção a um capricho qualquer meu, foi transformado na pior repreensão que lembro ter recebido em  minha convivência com ela.

Anos mais tarde ganhei de presente da minha mãe um quadro, por ela pintado, que retrata um grande ramalhete de garbosos ‘pacaretes’.

Com certeza, é o quadro mais bonito que hoje enfeita a sala da minha casa.

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