quarta-feira, novembro 09, 2011

Crônica da Praça

Estou na Praça Coronel Pedro Osório. No intervalo entre turnos de trabalho caminho lentamente por seus espaços. Cai a tarde. O sol, contudo ainda está presente, e seus raios desenham sombras por entre os mosaicos que enfeitam os passeios da linda Praça.

Este espaço, livre de edificações, cercado por frondosas árvores, oferta frescor nesta tarde quente de março. Apetece-me sentar. Escolho um banco e tomo assento.

Observo o entorno e meu pensamento se distancia. Vejo-me envolta com lembranças. Regresso ao final da década de 70. Recordo o programa das tardes de sábado. Ele se realizava em algum recanto da Praça. Minha “tribo” apreciava sentar nos bancos postados na esquina da Rua Princesa Isabel, ou em frente à Barão Butuí.

Destes locais era possível observar a passagem dos ‘paqueras’ dirigindo seus ‘possantes’ veículos – de Brasílias a Chevettes; de Corcéis a Fuscas. Muitos deles não existiam por seus nomes, mas eram facilmente identificados por números – os das placas de seus carros. Lembrei dos finais das manhãs de sábado, quando a quadra da Rua Quinze de Novembro – da Praça até a Sete de Setembro – era reduto da juventude pelotense. Degustar um ‘pão com molho’ da ‘Nogueira’ e transitar por entre os caminhos da Praça era ótima programação.

Um sorriso brota dos meus lábios. Dou-me conta que ele chama atenção de um senhor que passa. Seu olhar admirado para o meu riso saudoso e brejeiro tira-me do devaneio, mas não da Praça. Afino a percepção, engranzo o olhar.

 À minha esquerda um grupo de senhores realiza a jogatina do final da tarde. Jogam damas. Há quem dispute e quem assista. Todos estão em perfeita harmonia com o ambiente da Praça.

 Volto o olhar para o Chafariz. Em seus degraus está uma confraria de jovens ‘emos’, apreciadores do ‘punk rock’. Eles conversam animados. Também estão em sintonia com o local. Desfrutam da Praça de verdade.

 Em outro banco, mais adiante, avisto um antigo professor dos tempos da graduação. Traz um livro em suas mãos. Pouco lê e muito nota. O que observa o velho professor?

O barulho do carrinho de limpeza chama-me atenção. Uma senhora varre, recolhe um ou outro cisco que o vento trata de esparramar. A praça está limpa.

Surpreendentemente não há sujeira por ali. Prossigo a contemplação. Há muitas pessoas sozinhas nos bancos da Praça. Algumas têm o olhar vago. Estão pensativas.

Outras escutam música. Estão serenas. Seriam solitários aqueles indivíduos? Entre passantes apressados que atravessam a Praça Coronel Pedro Osório para abreviar o caminho, percebo mulheres que transitam de um lado para outro. Têm passos lentos essas mulheres. Nada as acelera. Um casal cochicha. Aos sussurros parecem ajustar algo. O que seria? Todos protagonizam alguma cena neste entardecer na Praça.

 O ‘zunzunzun’ de um grupo de meninas atrai minha atenção. Elas correm em direção aos brinquedos da pracinha. Meu olhar as acompanha. E então vejo o fotógrafo postado ali, ao lado do ‘cavalinho’. Ele espera eternizar, numa foto, o momento de uma criança nesta tarde ensolarada na Praça. Eu também quero fazer esse registro.

E o faço, mas não pela fotografia. Eu o capturo de outro modo. Prendo em minha memória os encantos da Praça Coronel Pedro Osório, pelo que nela há de belo, e através de todas as gentes que fazem dela o que ela é.

(13/03/2010)

Nenhum comentário:

Postar um comentário