quinta-feira, novembro 10, 2011

Envelhecer é para profissionais


Envelhecer é um processo tão ordinário quanto rápido. Se mesmo com saúde não é possível deixar de se consternar com as limitações impostas pela idade, quando a doença se instala, então, os entraves da existência circunscrita aparecem. E não há coisa pior para um idoso, ao enfrentar esse processo com dignidade e lucidez, do que ver-se limitado pelos sintomas de patologias que, se não matam, afetam a sua autonomia.

Assistir aos progenitores chegarem aos 80 anos é uma dádiva. Mas é difícil não se desgostar em ver quem nos cuidou, orientou e educou enfrentando barreiras próprias da longevidade: dirigir com distrações; comer e babar-se; contar e recontar, repetir histórias da vida – talvez numa tentativa desesperada de manter viva a memória; teimar sobre não ter sido informado de algo; ou de não ter ido algum lugar. Tudo isso fazendo parte da rotina de quem fica avelhantado.

Outro dia, observando os passantes enquanto tomava um sorvete, no centro de Pelotas, percebi muitos idosos em vai-e-vem contínuo pelas calçadas do entorno. Alguns, visivelmente atingidos pelos incômodos da tremedeira própria de um Mal de Parkinson, precisavam de concentração superior para conduzir-se entre os ladrilhos soltos das esburacadas calçadas.

No mesmo dia – pela presença de um reservado olhar privilegiado – vi a dificuldade de uma senhora que cruzava a calçada da Andrade Neves esquina General Argolo, no sentido bairro centro. As pedras soltas do calçamento irregular tornando dificultosa a travessia para aquela senhora, que se socorria da bengala para tentar se equilibrar, me sensibilizou.

Ônibus sem rampas de acesso - com degraus cada vez mais altos, que dificultam a subida dos idosos; motoristas mal educados teimando dar partida nos coletivos quando os ‘velhos’ mal alcançaram o interior do carro; falta de paciência de alguns no trânsito diante da travessia dos velhinhos nas faixas de segurança; desrespeito em bancos e no comércio; descaso dos órgãos públicos no atendimento destes cidadãos, tudo isso presente e potencializado para aqueles cujas limitações físicas e os lapsos de memória próprios da idade ou das doenças estão presentes.

Pelotas ainda parece distante das condições mínimas exigidas para uma suave convivência harmoniosa dos idosos. Postura inexplicável ante a uma geração de tendência cada vez mais longeva.

Os desrespeitos e os descuidos, contudo, não retiram a alegria e a esperança de muitos octogenários. Eles são exemplo de como aproveitar a vida quando se dedicam às artes: pintam, esculpem, dançam; fazem teatro e aula de canto. Conservam amizades. Convivem em grupos. Estudam idiomas. Dedicam-se à leitura e à fotografia. Viajam. Freqüentam bailes; unem-se ‘forever’, em matrimônio. Amam. Resistem a alguns abandonos, e aos obstáculos que a idade impõe.

Travam batalhas diárias, e não se dão por vencidos. A vontade viver, de continuar vivendo está presente. É incontida.

Nesse momento da vida afeto, amizade, carinho e atenção são combustíveis importantes. É disso que precisam os idosos. É o que esperam dos mais jovens: boa dose de paciência e muita resignação. Quem já percebeu essa verdade compreende melhor o próprio envelhecimento.

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