Por apreciar a boa mesa, sempre que viajo, a trabalho ou a lazer, freqüento restaurantes que me são indicados por amigos ou familiares. Quando retorno a alguma cidade costumo voltar àqueles restaurantes que ingressaram na minha 'lista de favoritos'.
Recentemente estive a trabalho numa das capitais brasileiras e fui a um desses restaurantes, cujo ambiente, atendimento e gastronomia são de qualidade ímpar.
Os pratos, desde os antepastos – que são atração à parte, com variedade de queijos, azeitonas, sardela napolitana, aspargos, aliche, carpaccios diveros, prosciutto di Parma – são muito bem servidos, verdadeiras porções familiares e, por isso, quando disponibilizados para uma pessoa ou para um casal, se constituem exagerados, mesmo para os maiores apetites.
É impossível dar conta da quantidade de comida servida por este restaurante.
Pois nesse dia em que jantamos por lá – eu e minha companhia - me vi refletindo sobre o desperdício de comida, que não ocorre somente nos restaurantes.
Enquanto milhões de brasileiros passam fome – mais de 14 milhões de pessoas, segundo dados do IBGE – o restante da população joga no lixo 30% de todos os alimentos comprados. Embora o consumo consciente de alimentos tenha relação econômica – custa caro alimentar-se –, ambiental – o alimento que vai para o lixo produz gás metano que é muito mais nocivo do que o gás carbônico -, o que me sensibilizava naquele instante era o aspecto social, a fome mesmo, a barriga vazia de tantos.
Eu me alimentava – de algum modo me esforçando para não deixar sobras – e lembrava dos milhares de brasileiros famintos. A janta começou a me fazer mal, especialmente porque vi ser recolhida das mesas ao meu redor uma quantidade de ‘sobras’ que podia alimentar mais duas ou três pessoas...Ninguém pedia para levar!!!
Na minha mesa a situação não foi diferente. Terminei a janta e havia metade de um ‘travessa’ com a iguaria que havíamos solicitado.
Quando o garçom se aproximou para retirar os pratos, perguntei-lhe o que faziam com o ‘resto da ingesta’, já sabendo qual seria a sua resposta que veio pronta e rápida: ‘vai fora’.
Perguntei se eu poderia levar, já que esse hábito, embora corriqueiro, eu não vislumbrara ali. Ele me disse que as pessoas realmente não tinham o costume de pedir para levar a sobra do alimento, mas que ele poderia preparar para mim uma embalagem para viagem.
Como eu estava hospedada em Hotel, e às vésperas de retornar a Pelotas, pensei oferecer aquele alimento a alguém, na rua, e dividi minha intenção com o garçom.
Ele se aproximou e me cochichou ao ouvido: eu não aguento ver tanta comida sobrar aqui...
Enquanto aguardava a conta e a embalagem com o alimento, escrevi uma pequena manifestação no formulário que havia sobre a mesa para pesquisa de qualidade. Deixei registrada, de maneira educada, a minha repulsa, sugerindo à direção da casa repensar a dimensão das porções.
Saí do restaurante carregando o recipiente e, nem bem tinha dado uns 30 passos, encontrei um senhor, morador de rua, e ofereci-lhe o jantar, cheia de cuidados e com mil explicações para não lhe ofender.
Ele recebeu feliz e agradecido a minha doação. Só por isso eu consegui fazer melhor a minha própria digestão.
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